Telona/Gibiteca Básica - 300 - Março de 2007

300: uma obra prima

Neste mês de março (a estréia está prevista para a sexta, dia 30), os brasileiros verão Rodrigo Santoro como nunca viram antes: careca, com o corpo totalmente depilado, usando roupa que mistura armadura, jóias e ornamentos, e com uma série de piercings diversos espalhados pelo corpo. Ou seja, exatamente como concebeu Frank Miller em Os 300 de Esparta, genial graphic novel na qual o filme 300, que estréia dia 30, foi baseada, e que acaba de ganhar uma edição de luxo da editora Devir.

Os 300 de Esparta é a segunda HQ de Miller a ganhar versão cinematográfica. A violenta Sin City, considerada por muitos a obra prima do autor, já ganhou a telona em 2005, com bastante sucesso. No entanto, se foi a cidade do pecado que deu notoriedade a Miller e seu grande domínio do preto e branco, Os 300 de Esparta é, em muitos sentidos, uma história bem mais forte.

A graphic novel conta um episódio real da história da humanidade: a batalha entre o rei espartano Leônidas e o persa Xerxes, ocorrida em 480 a.C.. Por razões políticas, aliás muito bem mostradas nos quadrinhos, o rei grego é impedido de levar o exército para combater Xerxes, que ameaça invadir não só a cidade-estado, como também toda a Grécia. Assim, utilizando apenas sua guarda pessoal de 300 homens contra o que então era o maior exército já reunido no mundo, Leonidas decide barrar a invasão persa.

A história em si já seria boa o suficiente para entusiasmar qualquer leitor, mas Miller a tornou ainda mais impactante. Primeiro, pesquisou escudos, armas e trajes dos espartanos, bem como a geografia das Termópilas, local onde a batalha ocorreu, para garantir mais realismo aos quadrinhos. A arte caprichada ganhou mais força com as cores da excelente Lynn Varlley (que, por sinal, além de colorista é também esposa do autor) e o argumento cresceu exponencialmente graças à construção do personagem Leônidas.

Assim, além de mostrar o rígido modo de ser dos Espartanos e explorar uma aventura sobre coragem e honra, Miller reforçou a lenda do rei menino que lutou sozinho contra o lobo e, mais ainda, do líder corajoso, severo e justo que foi Leônidas. Isso, claro, dentro do modo de vida em vigor. Afinal, como Leônidas faz questão de frisar a um de seus jovens soldados, eles não têm escolha a não ser obedecê-lo: "Deixe a democracia para os atenienses, garoto".

Por ser repleta de passagens históricas tidas como reais – como aquele famoso diálogo no qual o soldado grego responde feliz ao inimigo que, se as flechas persas são tantas cobrirão o Sol, um tanto melhor pois eles poderão lutar na sombra – Os 300 de Esparta não chama só a atenção daqueles que gostam de histórias de guerra e de honra, mas é também um prato cheio para professores. Não são poucos os que descobriram no quadrinho um aliado no ensino de História, em especial quando o assunto são as cidades–estado gregas. E, é claro, a adaptação para a telona dirigida por Zack Snyder deve ser um aliado mais forte ainda.

É claro que, ao lado de citações e passagens históricas reais, Miller também coloca muita fantasia. Assim, há exageros como a criança defeituosa que sobreviveu ao abismo em que foi jogada para se tornar um monstruoso corcunda que na HQ tem papel fundamental, mas ao que se saiba nunca existiu na verdade. Bem como a roupa "estilo ninja" das tropas de elite de Xerxes.

Mas nada disso compromete a beleza e o impacto da HQ. E, espera-se, não deve comprometer o filme que, já se sabe, é recheado de efeitos especiais (os trailers da Warnerbros já estão disponíveis na Internet, inclusive no Youtube).

A edição especial de Os 300 de Esparta lançada pela Devir pode ser encontrada nas boas livrarias e comic shops. O preço, com o perdão do trocadilho, não é nada espartano: R$ 58,00. Mas vale cada centavo. Afinal, ao contrario da que foi lançada inicialmente pela editora Dark Horse nos EUA e pela Abril no Brasil, em 1999, esta versão respeitou o desejo do autor e foi publicada no formato horizontal (paisagem), em 33 por 24 cm. Isso, somado ao fato das 88 páginas coloridas terem sido impressas em papel couchet, deu aos quadrinhos de Miller o status merecido: trata-se de uma obra de arte. E obras de arte não têm preço.

O FILME

Logo na estréia nos EUA, o filme 300 já arrecadou US$ 70 milhões, o que pelos critérios da indústria cinematográfica americana (no qual bilheteria significa qualidade), o classifica como ótimo. Mas esqueça a bilheteria, o filme é bom independentemente de quantas pessoas o assistam.

Assim como aconteceu na transposição de Sin City para telona, o diretor Zac Snyder foi extremamente fiel aos quadrinhos. Consequentemente, teve de utilizar muitos efeitos especiais, inclusive para deixar Rodrigo Santoro mais alto (" com uns três metros" , na avaliação do ator) e com um vozeirão - neste caso, a voz do próprio Santoro foi distorcida por um programa de computador, quando necessário.

O filme é muito bem cuidado do ponto de vista visual (aliás, não poderia deixar de ser diferente, já que é fiel aos quadrinhos) e há diversas cenas que remeterão a outros épicos do cinema que abordam a civilização grega ou romana, como Gladiador. Mas, a exemplo da HQ, tem muito mais sangue, frases de efeito e nada de final feliz.

Rodrigo Santoro já declarou em diversas entrevistas que gostou muito de fazer Xerxes. "Uma pessoa poderoa, arrogante e mimada", afirmou o ator, que neste mês de amrço vem ao Brasil divulgar a película, em companhia de Snyder e de Gerard Butler (que interpreta Leônidas). Por sinal, o site Omelete publicou uma entrevista exclusiva com Butler, na qual o ator fala sobre 300 e como se inspirou na HQ para compor o personagem.

"Há vários momentos nela em que o Rei fica parado em poses incríveis e tentamos emular isso no filme, esses quadros memoráveis que denotam o poder do personagem. Eu olhava a HQ para referência mesmo em momentos que não estão lá, apenas para ter uma melhor sensação de como ele se portaria. Mas ao mesmo tempo, tive que ter em mente que este é um filme, não um quadrinho e outros momentos tiveram que ser pensados nesse sentido, para não parecerem ridículos e caricatos. Hiperreal e real ao mesmo tempo. Passar o poder que emana dele, mas humanizá-lo, para que o público possa se relacionar", disse. Confira a entrevista na íntegra no Omelete.

Resumindo: 300 é um daqueles clássicos estantâneos do cinema, que vale a pena ser visto. E Frank Miller, com certeza, terá mais de seus quadrinhos na telona muito em breve...