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Telona HQGame - Outubro de 2002
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Com
a palavra, Max Collins:
DELFIN,
especial para o MundoHQ
Max
Allan Collins é um escritor de mão cheia, mas praticamente desconhecido
no Brasil. A não ser por poucos quadrinhos, em sua maioria quando
trabalhou com o Batman, na DC Comics, o leitor brasileiro não teve
o prazer de se envolver com as aventuras de crime e mistério que
Collins narrou em dezenas de livros. Mas, com o lançamento de Estrada
para Perdição, um de seus trabalhos mais comentados (tanto quanto
pouco lido), há a tentativa de se reaproximar o leitor brasileiro
deste autor.
Entrevistei
o Sr. Collins, 54 anos, via e-mail, apesar de ter conseguido o telefone
de sua casa. Meu inglês ainda é mais firme na parte escrita, e,
apesar de meu temor de uma entrevista fria, isso não aconteceu.
Principalmente se contarmos que ele me respondeu, elegantemente,
às questões menos de seis horas após eu tê-las enviado para seu
endereço eletrônico.
DELFIN:
Algumas pessoas que assistiram ao filme disseram que ele era muito
"hollywoodiano", com um fim previsével. A história original não
é. Em sua opinião, quais são as diferenças principais entre seu
roteiro original e a adaptação para o cinema?
MAX ALLAN COLLINS: Eu não penso que seja legal
criticar o filme por não ser como a graphic novel. Eu escrevi uma
história de 300 páginas, com vários fatos acontecendo por elas,
e Sam Mendes e David Self tiveram que comprimir isso em um filme
de duas horas (um roteiro de 110 páginas) e ao mesmo tempo abriram
a história um pouco para desenvolver algumas relações entre personagens.
O personagem de Jude Law, por exemplo, é composto por meia-dúzia
de personagens da graphic novel; Self fez um grande trabalho, juntamente
com a concepção do diretor de fotografia. Do ponto de estrutura
do filme, ter um vilão secundário como o personagem de Law faz muito
sentido. Eu também aprovei a expansão da relação de pai e filho
entre Newman e Hanks... eu dei essa dica, que Mendes e Self enfatizaram,
e bem. Eu gostei mais do meu final, também, mas eu acredito que
o final do filme foi feito artisticamente e chega ao mesmo ponto
que o que eu fiz... pegando sua própria e diferente estrada, mas
uma que respeitou a minha visão.
Lendo
a citação de Kazuo Koike no início da história, eu pensei... Você
vê o Arcanjo da Morte e Michael Jr. como uma versão anos 30 do Lobo
Solitário e seu filho, Daigoro?
Uma
das coisas que eu tentei fazer em Estrada para Perdição foi uma
homenagem americana para Lobo Solitário (de Kazuo Koike e Goseki
Kojima). Houve muito mais coisas que isso, é claro, mas isto foi
parte do todo, e eu procurei ampliar a compreensão pela citação.
No começo dos anos 90, quando eu lancei Estrada para Perdição, eu
estava muitíssimo influenciado pela cultura pop asiática, como os
filmes de ação de Hong Kong e filmes japoneses de samurai. Eu procurei
fazer uma versão gângster-dos-anos-30 do que John Woo fez em filmes
como Alvo Duplo e Bala na Cabeça.
Você e Richard Rayner desenvolveram a história por quatro anos.
Foi muito difícil resgatar toda a informação histórica sobre os
anos da depressão e os personagens reais que compuseram o pano de
fundo da história?
Eu escrevi por volta de 20 novelas históricas
de detetive e o aspecto de pesquisa de todas é atualmente meio fácil
pra mim, pois preencher o tempo é minha especialidade. Eu provi
Richard com montes de fotos pesquisadas sobre Rock Island e Chicago
nos anos 30.
Toda
a relação entre as igrejas e a fé... Eu posso estar errado, mas
é uma linha condutora da história. Você acha essa fé importante?
Mas fé em Deus ou nas pessoas por elas mesmas?
Meu uso da religião na graphic novel tem a
intenção de ser irônico, na maioria das vezes... a noção que um
gângster ter de parar num confessionário depois de seu último massacre,
poder jogar seus pecados fora... de novo e de novo. Mas também há
algo de doce sobre isso, um aspecto inocente que me agrada. É um
pai que se preocupa com seu filho, e que espera o garoto termine
melhor que ele. Então a noção de que O`Sullivan se preocupa com
o que Deus pensa, e que ele tem ao menos alguma noção que ele está
fazendo coisas erradas, também tem apelo para mim. Eu gostaria de
dizer, pessoalmente, que eu coloco minha fé nas pessoas... reservadamente.
Penso que Deus tem coisas melhores pra fazer do que brincar de marionete
com nossas vidas, ou ficar sentado esperando que nos desculpemos
por estragar tudo.
Uma
última questão... Você é fascinado por histórias de detetive? Seus
poucos trabalhos e HQs publicados no Brasil parecem mostrar isso,
como, por exemplo, Ms. Tree (Editora Success, 1990). Qual a importância
do mistério no seu trabalho e na vida?
Sou fascinado por histórias de crime e mistério
desde minha infância. Quando garoto, eu gostava de do aspect de
ação e aventura em muitas fábulas. Como um adulto um pouco mais
maduro, eu percebi que este gênero lida com os assuntos maiores:
vida e morte. Por vezes a ficção noir é desconsiderada por ter obsessão
por sexo e violência... mas, novamente: sexo é vida e violência
é morte e estes são os grandes temas. Eu também sempre gostei de
melodramas... Eu gosto de histórias que tem uma superfície realística
mas, por baixo, contendo algum romance... personagens maiores que
a vida disfarçados de cotidiano.
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