|

|
| Quadrinistas,
Graças a Deus !!! |
Alan
Moore, o revolucionário
Na
década de 80, os quadrinhos de super-herói sofreram uma verdadeira
invasão de roteiros escritos por autores ingleses. Entre as figuras
que mais se destacaram na "invasão britânica", uma causou uma verdadeira
revolução na história das HQs. Dono de uma vasta cabeleira e de
um olhar de mau cuidadosamente planejado, o inglês Alan Moore ficou
famoso por seus roteiros cuidadosamente elaborados que provaram
ao mundo, de uma vez por todas, que histórias em quadrinhos não
eram apenas para o público infanto-juvenil.
Escrevendo histórias cheias de contextualização política e social
e referências culturais adultas, Moore criou uma série de histórias
e heróis inesquecíveis que, invariavelmente, tocavam em um assunto
no mínimo curioso (e de conseqüências devastadoras dentro e fora
das HQs): o que aconteceria se os heróis existissem de verdade.
A moda dos heróis mais humanizados, que sentiam remorso, choravam
e tinham até de fazer a barba, já não era uma novidade nos quadrinhos
desde os anos 60. As histórias de Alan Moore, no entanto, não falavam
de heróis humanizados e sim de super-heróis convivendo - em alguns
casos, apenas tentando sobreviver - no "mundo real" dos humanos.
Moore começou sua carreira tentando ser desenhista, no final dos
nos 70, com uma tira chamada Maxwell, the Magic Cat, publicada
no jornal de sua cidade natal (e na qual mora até hoje),
Northampton. Com "dotes artísticos duvidosos" (segundo ele mesmo)
e trabalhando sem receber, Moore logo desistiu da tira, mas acabou
entrando na divisão inglesa da editora Marvel após ter alguns de
seus roteiros analisados.
A partir de então, começou a escrever histórias para a revista de
ficção científica 2000 AD e para o semanário Doctor Who.
O Milagre (literalmente) aconteceu no início dos anos 80, quando
o autor escreveu para a revista Warrior a série Marvelman,
que logo a seguir, em 1985, foi publicada nos Estados Unidos com
o nome de Miracleman, ou Homem do Milagre.
Em Miracleman, Moore pegou um elenco ingênuo de personagens baseados
na família Marvel (o "Shazam") dos anos 50 e os jogou em um mundo
sombrio e realisticamente corrompido. Na série (que chegou a ter
três números publicados no Brasil pela extinta editora Tannos, em
1989), o autor mostrou o que acontece quando um herói bom, de poderes
quase divinos, se depara com a crueldade do mundo real e, ainda,
o que acontece quando o dono de superpoderes é apenas um típico
adolescente confuso e em crescimento.
A
revista estourou nos Estados Unidos e a Marvel americana resolveu
chamar o inglês para escrever um de seus grandes títulos, o Monstro
do Pântano, cujas vendas estavam caindo. "Eu havia mostrado
que podia escrever quadrinhos de super-herói de um jeito que ninguém
sabia. E como as vendas do Monstro estavam caindo, tive o terreno
perfeito para pisar e fazer o que eu quisesse. O personagem já estava
ruim e não havia nenhuma pressão, afinal eu não poderia estragar
coisa alguma."
Moore acabou revitalizando o Monstro do Pântano. Primeiro, encaixou
nas histórias lobisomens, vampiros e uma série de espíritos furiosos.
Depois começou a trabalhar mais a fundo os aspectos emocionais e
psicológicos da criatura que, até então se pensava, era um homem
transformado em planta. Moore mudou a história, encantou os fãs
e deu novos rumos ao personagem com a revelação de que, na verdade,
tratava-se de uma planta que pensava um dia ter sido homem.
Heróis de verdade
O
sucesso com o Monstro do Pântano deu oportunidade a Moore para trabalhar
com os super-heróis de primeiro time e ele foi chamado pela DC Comics,
concorrente da Marvel. Nesta época, produziu roteiros para a revista
do Super-Homem, nos quais a temática do herói no mundo de verdade
começou a voltar à tona. Em uma delas, "O que aconteceu com o homem-de-aço?",
fez com que o Super-Homem tivesse sua identidade revelada, o que
acabou gerando uma caça aos amigos do herói (Lana Lang e Jimmy Olsen
morrem na HQ) e sua aposentadoria precoce por trás de uma falsa
morte. A HQ, com desenhos de Dave Gibbons, só não causou mais impacto
porque foi publicado no selo "Else Worlds", ou seja, uma história
do tipo "o que aconteceria se", fora da cronologia oficial do herói.
Pouco
depois, no entanto, Moore pegou pesado com a história Batman:
a Piada Mortal, essa sim publicada como parte "oficial" da hitória
do personagem (no Brasil, lançada pela Abril em 1988 e relançada
no ano passado). Na HQ, desenhada por Brian Bolland, o autor faz
com que o Coringa sequestre o comissário Gordon e o torture, em
uma tentativa de mostrar que qualquer um pode ser tão louco quanto
ele se tiver "a motivação certa".
O mundo real entra com tudo na cena em que o Coringa, ao invadir
a casa do Comissário Gordon, atira na filha do policial, Bárbara,
e a deixa aleijada da cintura para baixo (a personagem permanece
até hoje nestas condições). Além disso, o Coringa fotografa a ex-batgirl
sem roupas e sangrando, e exibe as fotos para Gordon. Mais uma vez,
estouro de vendas.
Watchmen
Mas
a consagração de Moore - e dos quadrinhos como leitura adulta -
veio com a macrossérie Watchmen, desenhada por Dave Gibbons e lançada
no Brasil em 1988. A série começa com o surgimento de um grupo de
super-heróis, ainda no governo Nixon. Com a ajuda deles, os Estados
Unidos vencem facilmente os confrontos com Coréia e Vietnan. Mas
o mundo começa a temer os super-seres, a polícia reclama que eles
estão tomando o seu lugar e os governos decidem então, regulamentar
o trabalho - Watchmen, ou vigias, é uma refrência uma frase de alerta
do povo contra os super-heróis: quem irá vigiar os vigias? (Who
is gonna watch the watchmen?).
Os super-heróis que não se rendem às leis são mortos misteriosamente
ou viram foras-da-lei. A série pula, então, para um misterioso 1985
onde coisas estranhas começam a acontecer e os antigos super-seres
decidem reaparecer para investigar, gerando revolta e medo na população.
Moore ganhou uma série de prêmios com a história e mostrou que é
possível escrever quadrinhos usando metáforas, referências bibliográficas,
músicas, recortes, flashbacks e uma série de outros recursos inéditos
ou pouco explorados até então.
O
sucesso da série fez que as editoras de todo o mundo relançassem
outra obra do autor, V for Vendetta (V de Vingança,
lançado no Brasil pela Abril em 1990 e pela Via Lettera em 1999).
Nesta história, com a qual já havia conquistado prêmios literários
ingleses em 1982 e 83, Moore transforma Londres em um verdadeiro
cenário de 1984, de George Wells, com um governo ditatorial que
não admite sequer meios de cultura como discos e livros antigos,
por considerá-los subversivos.
Com alto teor político, psicológico e cultural, V de Vingança
é considerado uma obra de arte e irritou políticos ingleses como
a dama-de-ferro Margaret Tatcher, que - segundo o autor - inspirou
boa parte do cenário de terror da Londres então "futurista" de 1997.
"No governo dela estavam se propondo leis contra a existência de
homossexuais e outras minorias. O futuro que eu contava na minha
história, infelizmente, parecia muito provável naquela época", conta
Moore.
AFASTAMENTO
O
sucesso de Watchmen acabou irritando o autor ("fiquei de saco cheio
de super-heróis como um meio de expressão sério") e ele decidiu
se afastar no final dos anos 80 de histórias comerciais e de super-heróis.
Só em 1993 Moore voltou à ativa, com roteiros para o personagem
Spawn (a cria do inferno) e o grupo GEN-13.
A obra mais recente de Moore, concluida no ano passado e lançada
neste ano no Brasil, é From Hell (Editora
Via Lettera, R$ 33,00). Desta vez, o autor explora, com o desenhist
Eddie Campbell, o mito de Jack, o estripador. O gibi é baseado na
obra Jack The Ripper: The Final Solution, do escritor de
terror Stephen King, que apresenta o médico real Sir William Gull
(o homem que descobriu a anorexia) como sendo o assassino.
Lançada no Brasil originalmente em branco e preto, a obra é densa,
profunda e provoca uma série de reflexões. Ou seja, é Alan Moore.
É quadrinho pra gente grande.
|
|