Manganimenews - Outubro/Novembro de 2006

Noiva cadáver...à japonesa

O que aconteceria se tivessem pedido para o escatológico Augusto dos Anjos escrever uma fábula para crianças? Provavelmente algo muito parecido com o que ocorreu quando a editora japonesa Koushinsya pediu à autora Junko Mizuno que desenhasse sua própria versão de Cinderela. O resultado, uma mistura absurda de grotesco e "bonitinho", foi o mangá (quadrinho japonês) Cinderalla.

"Por algum motivo, acharam que eu não conseguiria escrever uma história, por isso acharam melhor que eu fizesse algo baseado em material mais antigo, como conto de fadas", conta Junko. O resultado, com certeza, não foi o que a editora esperava, mas ainda assim conquistou uma enorme quantidade de fãs – em especial adolescentes do sexo feminino – no Japão e em diversos países onde o gibi foi lançado. No Brasil, a HQ foi lançada pela Conrad editora (146 páginas coloridas, R$ 29,50).

A história tem um humor um tanto macabro, que lembra um pouco a Noiva Cadáver de Tim Burton, mas com uma dose muito maior de surrealismo. Assim como no original, Cinderalla perde o pai, mas ele só se casa com a madastra malvada depois de morto e volta para casa como zumbi, acompanhado da esposa e das duas enteadas (todas mortas-vivas também).

Cinderalla, então, passa a trabalhar como uma escrava para saciar o apetite da mãe e os desejos das meio-irmãs – que incluem a costura de um sutiã tamanho gigante para uma das meninas. Ah, sim, vale lembrar que há o leve erotismo comum aos mangás está presente na HQ, e também rende piadas de gosto duvidoso que os adolescentes costumam gostar.

Este humor escatológico juvenil, por sinal, é o forte de Cinderalla e dá as caras a todo momento: seja nas receitas de espetinho preparado pelo pai da moça ou até na cena antológica da escadaria. Em vez de perder o sapatinho de cristal, a heroína, transformada em morta-viva pela fada-madrinha para poder ir ao baile do príncipe zumbi (!), perde um...globo ocular.

E, se no conto original, todas as moças tentam experimentar o sapatinho, fica por conta e risco do leitor destas linhas imaginar o que fazem as moças da história para provar ao príncipe que elas são sua escolhida. Apesar da nojeira do argumento, os desenhos não vão enjoar ninguém. Pelo contrário, os desenhos são bastante atraentes, pois juntam o característico traço " fofinho" do mangá com cores vibrantes, num resultado meio arte retrô.

Com tantas mudanças no conto original, a autora Junko Mizuno – que já é famosa, aos 33 anos, não só pelos mangás como por incursões bem sucedidas que faz no desenho de moda e na música eletrônica – fez questão de se manter fiel a pelo menos uma característica dos contos originais:o final feliz.

Cinderalla, nojenta ou não, acaba vivendo (ou seria morrendo?) feliz para sempre. Mais feliz ainda está Junko, cuja conta bancária engorda a cada dia, e que agora se prepara para lançar mundialmente as versões grotescas de A Pequena Sereia e João e Maria.

 


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