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Coisa - Outubro de 2007- Hermes T |

Sob
o olhar do Corvo
Diz
a lenda que existe uma maldição sobre o personagem
O Corvo, interpretado pela primeira vez no cinema por Brandon Lee,
filho do artista marcial Bruce Lee. O próprio Brandon morreu
durante as filmagens por causa de uma bala verdadeira que deveria
ser de festim, e outros tantos que se envolveram com o Corvo tiveram
a mesma sina.
Essa
talvez fosse uma explicação simples e metafísica
para a morte do desenhista Hermes Tadeu, considerado pela editora
Marvel um dos maiores coloristas que já passaram pela “Casa
das idéias”. Afinal, o próprio Hermes adorava
O Corvo e levava em lugar de destaque de seu portfolio o belíssimo
desenho que fez do personagem...
A
explicação mais concreta e de uma realidade mais difícil
de aceitar, porém, é esta: Hermes foi mais uma vítima
aleatória da violência brasileira. É essa triste
verdade que dá o tom de Sob o olhar do Corvo, biografia
do artista assassinado em 2003 lançada pela irmã dele,
Dalila da Silva.
Hermes T., como era conhecido, tinha apenas 25 anos quando foi morto
na praia, em plena luz do dia, ao lado da namorada. O assassino,
Rodrigo dos Santos Moreira, queria a máquina fotográfica
do rapaz, que sequer esboçou reação.
A
morte violenta, no auge da carreira (havia sido contratado como
colorista do incrível Hulk há pouco tempo) chocou
não só família e amigos como também
toda a comunidade artística brasileira e boa parte da internacional.
E, anos depois, foi esquecida entre tantos outros assassinatos que
banalizam a verdadeira guerra civil que o país vive.
Por isso o objetivo principal do livro, diz Dalila, é justamente
manter viva a memória de Hermes e, mais ainda, pedir por
Justiça por todos os que sofrem destino semelhante.
“O
canalha que matou meu irmão foi condenado a 33 anos e dois
meses de cadeia, mas deverá sair com um sexto da pena, ou
seja, só cumprirá cinco anos e dois meses...deverá
sair na metade de 2009. O comparsa foi encontrado e está
respondendo a processo, mas, mesmo que seja preso deverá
cumprir dois anos de pena. É isso que valem nossas vidas
no Brasil”, lamenta.
Sob
o olhar do Corvo é muito mais que um relato da vida
batalhadora de Hermes, garoto de família humilde que varava
noites tentando aprimorar sua técnica e que obrigava pais
e irmã a fazer as poses mais diversas para estudar feições,
anatomia, luz e sombras. Trata-se do registro de um exemplo de vida
e, ao mesmo tempo, de um grito de alerta em relação
à impunidade que reina no Brasil.
O livro inclui reproduções de matérias de jornal
e depoimentos de cartunistas que conheceram Hermes, além
de um miolo colorido com reproduções das belas artes
do colorista (como esta do Aranha aí ao lado). O texto em
si, porém, ainda que compreensivelmente recheado de lamento
e dor, é o que merece destaque.
Na
maior parte do livro, Dalila narra duas histórias complementares,
alternando a narrativa entre os capítulos. Ora fala sobre
morte (conta o assassinato do irmão, as reações
da família e do mundo artístico, a busca por Justiça),
ora sobre vida: o crescimento de Hermes como artista, suas vitórias,
amores, o trabalho, a relação com a família,
o bom-humor e eterno otimismo de menino crescido.
Difícil não notar que a vida do Hermes era estranhamente
marcada pelo misticismo. O artista tinha um lado um tanto quanto
medium, via e tinha sensações muitas vezes premonitórias,
a maioria atemorizante. Porém Dalila, sabiamente, não
atribui a morte do irmão a nenhum tipo de karma ou pecado
de outra vida a ser pago. Por mais místico que Hermes T.
pudesse ter sido, sua vida acabou por uma razão nada metafísica.
E
a vida de Dalila, por sua vez, continuou (de maneira nada fácil,
como se vê no livro) e ganhou novos rumos: ela é, hoje,
uma das muitas vozes que gritam contra a impunidade no País.
Um grito que se mistura à vida de Hermes e ganha corpo nos
últimos capítulos do livro, onde a autora conta seu
envolvimento com a luta por Justiça.
Ela
esteve, por exemplo, na sala do então ministro Márcio
Thomaz Bastos, em março de 2006 - ao lado de diversos outros
parentes de vítimas de assaltos, sequestros e balas “perdidas”
– para apelar contra o fim (na prática) da Lei de Crimes
Hediondos, declarada inconstitucional pelo STF. Em vão.
Hermes com certeza nunca será esquecido. Constantemente é
lembrado e homenageado por outros artistas, a Marvel o elegeu como
melhor colorista das páginas de Hulk de todos os tempos,
a prefeitura de Cerquilho, onde ele dava aulas, instituiu o Troféu
Hermes Tadeu para Desenho de Humor, dado anualmente a talentos que
se inscrevem no salão local.
Mas isso é pouco. É preciso também que a morte
injusta de Hermes seja lembrada constantemente, para que a luta
contra a impunidade continue e um dia, quem sabe, seja efetiva.
Nesse sentido, o livro de Dalila é fundamental, bem como
os sites mantidos na Internet sobre o artista (www.hermestadeu.com
e www.hermesporjustica.com
).
Sob o olhar do Corvo tem 148 páginas, custa R$ 18,00
e pode ser comprado pela Internet, no site do autor. Em tempo: o
nome do livro não é meramente referência ao
personagem interpretado por Brandon Lee. É muito mais uma
ligação com o adágio lembrado por Dalila para
se referir à impunidade reinante no Brasil: cria corvos e
eles te comerão os olhos.
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