Trecho do Livro

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- Acontece – e agora Samanta falava com a segurança de quem estudara Literatura Brasileira com afinco no colégio – que um saci, como qualquer idiota sabe, é um garotinho negro de toca e sunga vermelhas, cachimbo e uma perna só! Não precisa nem ter lido Monteiro Lobato pra saber disso, basta assistir o Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV ou até ler um gibizinho! E a dupla de patetas aí parada é branca, um loiro e um moreno, vestida dos pés a cabeça e, oh, ambos têm as duas pernas!

- Dito, Dito, Maldito Dito! – os dois meninos falaram ao mesmo tempo, com uma entonação que lembrava uma mistura de canto e xingamento.


- O que é isso, agora? Mais coisa de saci, é? – perguntou Samanta, zombeteira.


- Na verdade, é sim. Trata-se de uma tradição de mais de 50 anos – respondeu Vítor, com aquele arzinho superior que começava a irritar Samanta. E, naturalmente, a atraí-la também... – Quase todas essas informações que você e os seres humanos acreditam saber sobre os sacis são a mais pura bobagem. E o responsável pela disseminação dessa bobagem é justamente o saci que nós acabamos de amaldiçoar: Dito Babosa!

- Dito, Dito, maldito Dito! – repetiu Zé Augusto.

- A história é a seguinte: os sacis, assim como outras criaturas não-humanas, estão na Terra há muito tempo. Sempre fomos, porém, os mais discretos entre todos. Ninguém sabia o que fazíamos, quem éramos, enfim, estávamos a salvo da curiosidade dos humanos e assim podíamos agir com mais liberdade. Até um fatídico verão de 1920. Sabe, quando chegam ao último nível na escola, antes de receberem o diploma de sacis graduados, alguns de nossa raça decidem comemorar e acabam exagerando um pouco. E, naquele ano, para azar de toda a comunidade sacizal, um dos que decidiu comemorar chamava-se Dito Babosa...


- Dito, Dito, mal...

- Ela já entendeu, Cabeção! Sossega!

"Dito Babosa" – contou Vítor – "era de uma das mais ricas e tradicionais famílias de sacis. Não apenas isso, os Babosa destacavam-se nos estudos das ciências e das artes. O bisavô, inclusive, havia entrado para a história ao descobrir como obter um poderoso elixir curador, misturando-se um perigoso ácido com folhas de algumas plantas. Durante a experiência, chegara a furar as palmas das próprias mãos, mas fazia questão de dizer que os buracos redondos que permitiam ver claramente o que havia do outro lado eram uma medalha por seus serviços, um preço pequeno a se pagar por tamanho avanço. Preço que, por um desses mistérios da natureza, transmitiu geneticamente a todos os seus descendentes, distinguindo-os entre os demais sacis. Um desses descendentes era Dito, que, no início da década de 20, estava terminando seus estudos de formação na arte de ser saci. Ao contrário da maior parte dos integrantes da família, porém, nunca havia feito nada de excepcional. Resolveu, então, que faria uma comemoração excepcional para marcar sua formatura. Junto com alguns colegas, bebeu a noite inteira antes da cerimônia. Mas, ao contrário deles, não dormiu até a tarde do dia seguinte, após encher a cara de pinga-com-mel (uma bebida tradicional entre os estudantes sacis, que, nesta área em particular, não são lá muito famosos por sua criatividade e muito menos pela disposição para gastar dinheiro). Decidiu, então, sair atrás de mais bebida... humana. E a achou dentro da garrafa de um senhor que pescava tranqüilamente na beira de um rio, em seu sítio na região de Taubaté. Rendido pelo homem ao tentar levar a garrafa, Dito acabou revelando a existência dos sacis e o pescador – que, descobriu-se depois, era também escritor e atendia pelo nome de José Bento Monteiro Lobato – publicou no ano seguinte um relato romanceado do encontro dos dois, em um livro chamado "O Saci". Só que ele achou que todos os sacis eram como o Dito e daí toda a confusão.

Então – perguntou Samanta, sem ter certeza se deveria rir ou não da história – não é verdade que todos os Sacis são negros?

- Há um grande número de sacis negros, assim como há brancos, amarelos, vermelhos. A cor da pele dos sacis varia como a dos humanos.

- E o gorro vermelho?

- O nome é carapuça, mas a cor varia de acordo com o nível de aprendizado do saci. No primeiro nível, ela é branca, no segundo é preta, no terceiro é amarela, no quarto é azul, no quinto é marrom, no sexto é cor-de-burro-quando-foge e no sétimo é vermelha. Sacis formados usam carapuças verdes, que variam de tonalidade de acordo com a profissão: professores usam verde-musgo, publicitários verde-limão, agentes do governo e autoridades, verde-oliva, e assim por diante.

- E a história de ter uma perna só?

- Bem, apesar de embriagado, o Dito sabia que deveria se esconder dos humanos, por isso usou de invisibilidade, uma capacidade que os sacis têm. Acontece que, mesmo sóbrio, ele já era um aluno medíocre. Bêbado, então... acabou deixando invisível só uma perna, além das roupas. Delas só não apagou a cuequinha vermelha, que combinava com a carapuça. Ele era meio estranho, sabe?

- O furo nas mãos, e o cachimbo?

- O furo era herança genética, já expliquei. Quanto ao cachimbo, acho que já deu pra perceber que ele era chegado em alguns viciozinhos, né ?

- Tá, mas e todas aquelas coisas que o saci faz e que se faz pra pegar saci, por exemplo? Saci anda mesmo em redemoinho ?

- Redemoinho, ciclone, tornado, furacão... mas só se passar no exame da auto-escola.

- E a peneira com cruz pra pegar saci ?

- Nem com cruz, nem com estrela de David, nem com pentagrama. Balela de bêbado.

- E prender saci em garrafa ?

- Dependendo do conteúdo da garrafa e da sede do Saci, até funciona.

- Dar nó em crina de cavalo ?

- O Dito queria ser cabeleireiro e estava treinando. Eu já disse que ele era meio estranho?

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