| HQ
Coisa - Abril/Maio de 2006 |

Arrowsmith:
uma mágica metáfora
A
guerra exerce uma certa magia sobre os adolescentes do sexo masculino
- é muito comum encontrar casos de países envolvidos
em conflitos nos quais jovens mentem a idade para poderem batalhar
no front. No entanto, eventualmente todo soldado descobre o inevitável:
em uma guerra, no fim, só há monstros de ambos os
lados. No caso de Arrowsmith, a guerra da magia, graphic
novel lançada no ano passado pela Devir que só agora
chegou em boa parte das lojas de histórias em quadrinhos
e livrarias, a descrição acima não é
uma metáfora.
Ou,
melhor dizendo, a metáfora torna-se literal nos quadrinhos
belamente desenhados pelo espanhol Carlos Pacheco (LJA/SJA) e idealizados
por Kurt Busiek (LJA/Vingadores e Astro City). Arrowsmith
conta a história de um jovem estadunidense que, entediado
com a vida em uma fazenda em Connecticut e a mentalidade tacanha
do pai, mente a idade para se alistar na Primeira Guerra Mundial.
Assim,
o jovem Fletcher "Fletch" Arrowsmith torna-se um recruta
aviador e vai
para a Europa descobrir que a guerra não é tão
romântica quanto ele pensa. A fantasia da história
fica por conta do seguinte "detalhe": Fletch voa não
em um avião, mas graças a magia acoplada a um pequeno
dragão sentado em seu ombro, o inimigo é uma espécie
de monstro que tem em suas tropas vampiros e lobisomens, zumbis
são recurtados por ambos os lados e magos concentram-se em
desenvolver magias e armas que garantam a vitória para o
lado que defendem.
O
que a primeira vista parece ser uma estranha mistura de O Senhor
dos Anéis com um documentário sobre a primeira
grande guerra revela-se um belo conto sobre a desumanidade dos conflitos
bélicos e, mais ainda, sobre o amadurecimento forçado
de milhares de garotos que são enviados para o front. Quaquer
front.
Assim,
quando Fletch vê o primeiro amigo tombar, morto pelas tropas
inimigas, ele e os demais jovens soldados celebram a honra do falecido,
"um homem nobre" que morreu em nome de uma causa. Tempos
depois, após salvar um grupo de sobreviventes por mera sorte
e descobrir que os monstros literalmente estão de ambos os
lados, o garoto descobre que morrer em uma guerra pode ser, sim,
nobre. Mas é estúpido e desnecessário.
"Nós
lutamos e os inocentes morrem. Mas, se desistirmos, mais inocentes
morrerão", pensa um combalido Fletch, antes de concluir:
os inimigos com certeza pensam exatamente a mesma coisa.
Além
do bom argumento - Busiek contou com a consultoria de Lawrence Watt-Evans,
que projetou 1100 anos de história alternativa da Europa e do mundo
com "desenvolvimento sócio-político místico" -, a arte
de Pacheco é deslumbrante. O desenhista caprichou tanto nos
cenários de desolação na Europa (que poderiam
muito bem passar pelos reais) quanto nas criaturas exóticas
que aparecem em toda a história.
Dos
cabelos de musgo e folhas do troll de pedra que havia se refugiado
em Connecticut fugindo da guerra à maravilhosa seqüência
em que o esquadrão de Fletch descobre estar transportando
armas químicas, ou melhor, salamandras demoníacas
que destruirão uma vila inocente, o traço do espanhol
é cheio de vida e detalhes que fazem com que cada quadro
mereça ser observado pelo menos mais uma vez após
a leitura da obra.
Arrowsmith,
a guerra da magia tem 160 páginas coloridas e tem preço
sugerido de R$ 39,00, mas na maioria das lojas está sendo
comercializada por algo em torno de R$ 50,00. A Graphic Novel, que
nos Estados Unidos foi lançada em seis partes e aqui no Brasil
teve todos os seus capítulos reunidos em uma única
edição pela Devir Livraria, pode ser encontrada em
Campinas em comic shops como a Pandora (fone 3234-4443) ou nas grandes
livrarias dos shoppings. Também é possível
comprar a obra diretamente no site da editora (http://www.devir.net).
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