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Coisa - Novembro de 2005 |
Asterix
enfrenta mangás
e George Bush
Dario
Carvalho Júnior

Estamos
no ano 2005 antes de Cristo. Todo o mundo foi invadido pelos quadrinhos
japoneses, os chamados mangás. Todo? Não ! Uma aldeia por irredutíveis
gauleses ainda resiste ao invasor em O Dia em Que o Céu Caiu,
32º livro de Asterix, o gaulês, recém-lançado no Brasil. Uma aventura
controversa, que vai chocar diversos fãs de carteirinha, mas que
tem como carta na manga uma crítica nada velada ao presidente estadunidense
George Bush.
O desenhista Uderzo - que desde a morte do roteirista e parceiro
Goscinny, em 1977, vem escrevendo e ilustrando os álbuns sozinho
- levou quatro anos para lançar este livro que já está sendo apontado
por muitos como a última HQ de Asterix. Isso porque Uderzo está
com 78 anos, admite que tem cada vez mais dificuldades ter idéias
para a série em, para completar, está daltônico e com problemas
nas mãos, o que dificulta a confecção dos desenhos - que, diga-se
de passagem, continuam soberbos.
Já
o argumento da história destaca-se pela sátira tanto ao mercado
de quadrinhos mundial quanto a George Bush, mas, infelizmente, não
chega aos pés das saudosas aventuras de Asterix boladas por Goscinny,
como, por exemplo, Asterix e Cleópatra e O Condomínio
dos Deuses (ambas citadas nesta aventura).
Os
fãs do baixinho gaulês que se torna super-forte ao tomar a poção
mágica do druida Panoramix vão se espantar logo de cara porque,
desta vez, em vez de enfrentar problemas com romanos ou participar
de situações históricas, Asterix, Obelix e companhia irão se deparar
com, entre outros, extra-terrestres, naves espaciais e clones com
a cara do Arnold Schwarzennegger que vem nos modelos super-homem,
homem-morcego e homem-aranha... Vista sem nenhum contexto, é uma
HQ sem pé nem cabeça.
Mas
os leitores mais atentos identificarão na aventura duas metáforas.
Tudo começa quando em um dia qualquer a aldeia de Asterix é invadida
por uma nave espacial comandada por um ser que mais parece o teletubbie
Tinkie Winkie, mas que, visto de perto, é um Mickey Mouse sem nariz
e orelhas grandes (as luvas e os botões dão grande referência e
em alguns quadros, em especial quando ao alienígena fica preto,
é fácil enxergar o camundongo).
O
nome da criatura é Tun Car (anagrama de cartun, ou cartoon, ou seja,
desenho animado). Ele vem do planeta Walneydist (anagrama de Walt
Disney, o gênio dos quadrinhos americanos) e traz em sua nave super-clones
vestidos de super-homem e que tem a cara de Schwarzenneger, que
são a polícia de seu sistema estelar.
Tun
Car, ou Roxinho, como é chamado pelos gauleses em uma tradução pouco
feliz, vem avisar da invasão dos poderosos Nagmas (anagrama de Mangá),
vindos do planeta Gnama (outro anagrama de mangá).
Com
efeito, logo chega outro alienígena, em uma nave estilo robô japonês,
que luta karatê, fala com sotaque japonês e quando encontra Obelix
agradece ao grande Akoaotaki - mais um anagrama: de Takao Aoki,
autor do famoso mangá/desenho animado japonês Beyblade. No decorrer
da história, tanto mangá quanto quadrinho ocidental americano se
declaram igualmente poderosos e revelam que querem a fórmula mágica
do druida, ou o segredo dos quadrinhos europeus.
Mas
este é só a primeiro e mais fácil metáfora. Para identificar a segunda
é preciso ficar de olho no tal "Roxinho". Ele diz que vem de uma
galáxia de 50 estrelas (as da bandeira americana) onde todos são
iguais e mais fáceis de identificar (uma crítica a cultura unificadora
americana). Conta que o sábio que comanda sua galáxia chama Hubs
(adinhe, outro anagrama...de Bush) e seus super-clones são a cara
do ator-governador republicano da Califórnia.
E,
em determinado momento, revela que veio para, por precaução, confiscar
a arma dos gauleses para impedir seu mau uso - qualquer semelhança
com a política Bush não é mera semelhança. "Até mesmo eu me surpreendi,
pois Goscinny e eu nunca pensamos em colocar asterix na política,
mas algumas coisas do governo Bush me levaram a isso", diz Uderzo.
O
desenhista incluiu ainda diversas outras referências a hábitos americamos,
mas, paródias a parte, a pergunta que os fãs fazem é: O Dia
em Que o Céu Caiu faz jus a saga de Asterix? Cada um deve
ler para chegar a própria conclusão, mas os fatos inegáveis são
que, se por um lado a sátira e a metáfora fazem esta aventura valer
a pena (motivo pelo qual na França a aventura vendeu mais que o
bestseller Harry Potter...), por outro o argumento é fraco como
os dos livros anteriores sem Goscinny.
Ou
seja, é essencial para fãs e para quem quer se apreciar uma boa
crítica política e ótimos desenhos, mas se o negócio é ver Asterix
em plena forma, prefira reler os títulos da coleção que Goscinny
escreveu, como Asterix, o Legionário ou O Combate
dos Chefes.
Homenagem
a Walt Disney
Apesar
de utilizar o personagem Tun Car para criticar George Bush e suas
políticas de governo, e de deixar claro que tanto o alienígena roxo
quanto o japonês são igualmente danosos para os gauleses, Uderzo
diz, na última página de O Dia em Que o Céu Caiu,
que o álbum é uma homenagem a Walt Disney.
Nas
palavras do desenhista, Disney foi "um célebre e xtraordinário druida,
que permitiu que alguns colegas e eu mergulhássemos no caldeirão
de uma poção cujo grande segredo só ele conhecia."
O
curioso é que, mais do que uma homenagem, a frase é uma capitulação.
Afinal, quando no longínquo outubro de 1959 os franceses Albert
Uderzo e René Goscinny foram procurados pelo publisher François
Clotaud com a proposta de criarem uma história em quadrinhos francesa
para crianças, a idéia era justamente desbancar o druida estadunidense.
A maior parte da garotada francesa, na época, lia apenas quadrinhos
americanos e Clotaud conclamou os dois amigos a fazerem algo que
mudassem aquele quadro. A
idéia original da dupla Uderzo e Goscinny era, inclusive, reutilizar
uma história francesa tradicional, de Roman de Renart, que trazia
animais como personagens, "mostrando que Walt Disney não criou este
estilo." Uderzo e Goscinny já tinham feito a primeira página quando
um amigo, Raymond Polivet, avisou os dois que outro cartunista,
Jean Trubert, já tinha feito isso.
A
primeira edição da revista para qual a história estava sendo feita
(a Pilote) tinha de sair em alguns meses e rapidamente a dupla precisava
achar uma nova idéia. Essa idéia foram os gauleses. Por sinal, a
idéia da aldeia gaulesa resistindo aos romanos que dominaram o mundo
já era em si uma metáfora da cultura francesa resistindo aos americanos.
Uma
curiosidade: Uderzo e Goscinny não sabiam, mas a idéia de usar gauleses
como personagens já tinha sido utilizada duas vezes antes que eles
criassem Asterix, em um personagem televisivo criado pelo apresentador
Jean Nohain e em outro personagem de quadrinhos. "Quando descobrimos,
a primeira edição de Asterix já estava publicada. Se tivéssemos
descoberto isso antes, Asterix e os gauleses nunca teriam existido",
conta Uderzo.
Um
livro permanece inédito no Brasil

O
Dia em Que o Céu Caiu é o 32º título da coleção
Asterix lançado no Brasil. No mundo, no entanto, é o 33º. Por motivos
não-explicados, nem a Editora Record nem qualquer outra publicadora
nacional lançaram por aqui Asterix e o Regresso dos Gauleses
(em inglês, A Class Act), álbum distribuído para o resto do mundo
em 2003.
Neste
livro inédito - me com mais páginas que todos os demais álbuns -
estão 14 histórias inéditas, a maioria de autoria da dupla Uderzo
e Goscinny, algumas apenas de Uderzo. Entre elas, uma HQ conta a
história do Galo que desperta a aldeia gaulesa diariamente e outra
mostra cenas inéditas do nascimento de Asterix (nesta aventura,
por sinal, aparecem pela primeira vez os pais de Asterix e Obelix,
que aqui no Brasil foram vistos por enquanto apenas em Asterix
e la Traviata)

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