O
nome da revista é em inglês e o traço é japonês, mas Holy
Avenger, uma das mais badaladas história em quadrinhos dos
últimos tempos, é uma brasileira legítima. Criada por Marcelo
Cassaro e com desenhos de Érica Awano, HA - como é carinhosamente
chamada pelos leitores - foi publicada em 40 exemplares e chegou
ao fim em agosto deste ano. Cassaro, que estará em Campinas no
dia 2 de novembro para participar do II Festival de HQ e Universo
Fantástico, já lançou outro título na mesma linha, Dungeon Crawlers.
Os "órfãos"de Holy Avenger, no entanto, são muitos. Boa parte
não se conformou que a história tenha terminado, afinal, se as
histórias do Super-Homem se arrastam por 65 anos, porque uma história
nacional tão boa durou apenas dois? "Porque toda boa história
deve ter começo, meio e fim", justificou Cassaro várias vezes,
alfinetando dezenas de super-heróis sem perceber. Holy Avenger,
cujos exemplares ainda podem ser encontrados m banca ou adquiridos
em cópias simples ou encadernadas pelo site da revista (www.holyavenger.com.br),
contou a história de um grupo de aventureiros típicos de RPG (o
Role Playing Game, ou jogo de interpretação), que, sem saber,
participam de uma trama arquitetada em torno de uma espada sagrada
(a tal "Holy Avenger") pelos deuses de Arton - planeta onde se
passa a história.
Tendo
como principais personagens o ladrão atrapalhado Sandro, a elfa
alienada Niele, a druida angustiada Lisandra e o invocado troglodita
(um guerreiro lagarto anão) Tork, a história conquistou milhares
de leitores e rendeu até alguns sub-produtos, como um livro com
ilustrações artísticas dos personagens. Um desenho animado da
série também está em estudo, como revelou Cassaro nesta entrevista
exclusiva.
Comenta-se
que Holy Avenger foi um fenômeno sem precedentes em vendagem de
uma revista nacional. A que você atribui esse sucesso todo?
"Sem
precedentes" é exagerar um pouco, porque já existiram quadrinhos
nacionais com vendagens muito mais altas. Mas foi em tempos melhores,
quando as revistas vendiam mais. Nos dias de hoje, qualquer título
que ultrapasse vendas de 30% é considerado um sucesso. As revistas
em quadrinhos que vemos atualmente nas bancas têm tiragens entre
10 e 30.000 exemplares. Quando vendem acima de 30% do total, isso
significa que conseguiram pagar os custos de impressão - e isso
já é considerado bom. Holy tinha vendas entre 40% e 50%. É difícil
atribuir o sucesso a algo específico, foram muitos fatores. Primeiro
a regularidade e continuidade, pois os leitores estão cansados
de ver HQs nacionais atrasadas ou canceladas logo no número 3,
então manter a revista nas bancas todos os meses foi vital. Segundo,
a revista era em estilo mangá e também tinha ligação com um cenário
de RPG bem-sucedido, atraindo leitores de ambos os segmentos.
Terceiro, o preço foi mantido exatamente o mesmo desde as primeiras
edições. E assim por diante.
Há
algum tempo atrás você comentou em entrevista ao Caderno C que
as histórias de UFO Team e Capitão Ninja (outros títulos escritos
por Cassaro) se passavam em cenários estadunidenses e com personagens
de nomes "importados" porque o leitor brasileiro não se identificaria
com um super-herói que se chamasse José, morasse em uma favela
e nas horas vagas fosse o Capitão Amazônia, por exemplo. Isso
mudou ? Por quê?
Não
mudou. Muitos autores brasileiros acham possível fazer histórias
de super-heróis simplesmente transportando o gênero para cá, mudando
o cenário e os personagens - e quando alguém afirma o contrário,
acusam de preconceito, de falta de patriotismo. Acontece que os
super-heróis, em sua essência, refletem a personalidade e cultura
norte-americanas. Eles são "supers" simplesmente por nascer, ou
recebem poderes de fontes externas - da mesma forma que o americano
típico pensa ser superior apenas por ser "americano". Isso é totalmente
oposto aos heróis japoneses, por exemplo, que só ganham superpoderes
com treino e esforço - nunca por nascer em outros mundos ou ser
picados por aranhas radioativas. Até mesmo Goku (de Dragon Ball),
que veio de outro planeta, tinha que treinar para ficar forte!
Super-heróis existindo em nossa realidade, com nossos nomes, sempre
soará estranho - porque não somos assim tão arrogantes. O mesmo
vale para artistas marciais com poderes sobrenaturais, estilo
Street Fighters, porque também não somos assim tão disciplinados.
Então, é mais fácil imaginá-los como americanos ou japoneses.
Holy Avenger foi inspirado no RPG Tormenta,
mas e os personagens em si, também foram criados para uma ou mais
partidas? Se não, houve alguma base ou inspiração para os principais
personagens?
Um
personagem utilizado para jogar RPG não funcionará necessariamente
em uma HQ. Mas alguns conceitos básicos de Holy foram, sim, inspirados
em fatos ocorridos na mesa de jogo. Nosso amigo Sandro Gonçales
certa vez jogou com um guerreiro que queria ser um ladrão como
seu pai - por isso o "não-Ladrão" de Holy tem seu nome. Niele
foi baseada em um ELFO bardo que fingia ser um mago. Lisandra
e Tork não tiveram nenhum equivalente em RPG: eles são algo mais
como Mogli (o menino-lobo, popularizado no desenho de Walt Disney)
e Wolverine (da Marvel).
O
roteiro de HA é muito bem
costurado. Olhando a obra toda, vê-se que muitas pontas soltas
foram deixadas no decorrer da trama e amarradas no final. No entanto,
há boatos que em determinadas ocasiões você, roteirista, apelava
para as raízes rpgisticas da HQ e rolava um D20 para determinar
o que aconteceria... há alguma verdade por trás desse boato?
Rolar dados para decidir os rumos da história nunca
funcionaria com uma HQ. Mas é verdade que Holy foi conduzida mais
ou menos da mesma forma que uma partida de RPG - porque, quando
comecei, eu não sabia qual seria o final e nem como chegaria lá.
Um Mestre de RPG deve ser flexível, alterar a aventura de acordo
com as decisões dos jogadores, então nunca existe um final definido.
Em
HA há o característico humor sexual brincalhão dos mangás, em
especial nas piadas com os seios enormes da elfa Niele. No entanto,
quando Niele aparece totalmente nua realmente, seus seios são
completamente lisos, no estilo boneca Barbie. Mesmo no mangá Dragon
Ball, muito consumido por crianças, os seios de Bulma já apareceram
sem nenhum tipo de suavização. Por que em HA ocorre essa "dessexualização"
? Linha editorial? Moralismo? Censura? Birra da Érica Awano?
É
notório que a senhora Awano nunca ficou muito confortável desenhando
uma elfa peituda e quase pelada. Em todas as ocasiões fez tudo
para torná-la menos sensual e mais engraçada, graciosa, divertida
(Niele deveria ter patinhas; os pezões de coelho não foram idéia
minha!). Funcionou, até certo ponto: Niele de fato ficou divertida
e engraçada, mas AINDA sensual.
Há
planos para transformar HA em desenho animado?
Recentemente fui contatado por um diretor de cinema razoavelmente
conhecido, que acha possível transformar Holy em uma série animada
ou mesmo um longa para cinema. Ainda estamos fazendo reuniões
para determinar como isso pode ser feito.
E quanto a action figures ou miniaturas?
Isso
também é algo que estamos estudando. Recentemente vocês lançaram
um livro com a arte dos personagens de HÁ. Outros produtos editoriais
ou mesmo spinoffs da série estão programados? Muitos, sendo que
quase todos serão lançados durante a Dragão Fest - um evento comemorativo
dos cem números da Dragão Brasil. Estava marcado para os dias
15 e 16 de novembro, mas será antecipado para os dias 6 a 9. Se
tudo correr bem, teremos o CD áudio Ouvindo Holy Avenger, com
histórias narradas por alguns dos melhores dubladores do Brasil;
Holy Avenger D20, um livro de capa dura com tudo sobre Holy Avenger
para o jogo Dungeons & Dragons; Holy Avenger 41 e 42, duas edições
extras que acontecem 5 anos depois do final; e Holy Avenger Especial
6, desta vez sobre Petra.
Ao
contrário de Holy Avenger, Dungeon Crawlers não é facilmente encontrada
nas bancas? Por que isso ocorre?
Eu não fazia idéia de que DC tinha problemas de distribuição.
Não posso responder por isso, pois essa revista é publicada por
outra editora. Quais as principais semelhanças - e diferenças
- entre Dungeon Crawlers e Holy Avenger? Semelhanças, só posso
dizer que ambas têm em comum o mesmo cenário e o mesmo roteirista.
Holy foi uma série longa, e DC - até onde sei - será uma minissérie
de quatro edições. Holy tem mais humor, DC tem mais aventura.
Há
alguma previsão de personagens vistos em Holy Avenger voltarem
a aparecer em Dungeon Crawlers ou em outro título futuro?
Exceto por uma rápida visita de Niele, acho que não teremos mais
grandes encontros.
Por
fim, o que você diria aos "orfãos" de Holy Avenger?
Algo
que eu já disse antes: Holy terminou, mas a diversão não precisa
terminar. Esta é uma história que será recontada de muitas maneiras,
e em cada vez será mais divertida. Esperem para ver.