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Fritz,
o gato da contracultura
Esqueça
Garfield, Tom, Manda-Chuva, Ignatz, Rom-Rom, Mefistófeles,
Cruel... Gatos nunca faltaram no mundo dos quadrinhos e dos desenhos
animados, mas o felino que realmente fez a diferença nos
Estados Unidos e no mundo chama-se Fritz, é cínico,
vagabundo, adora orgias sexuais e, para a felicidade dos fãs,
ganhou uma coletânea brasileira de suas melhores histórias,
totalmente traduzidas em português, publicada pela Editora
Conrad.
O
gato Fritz, que não por acaso se tornou um ícone da
contracultura estadunidense, foi criado em 1965 por Robert Crumb,
autor de outros quadrinhos undergrounds igualmente ácidos,
como Mr. Natural e Sis. Na verdade, Crumb já
brincava com a idéia de um personagem gato em suas primeiras
histórias produzidas no final dos anos 50, mas nada se compararia
ao gato que fez sua estréia nas páginas da revista
marginal Help.
Fritz
é um gato antropomorfizado que representa um típico
jovem dos anos 60 e 70. Nas primeiras histórias, aparecia
por vezes como o universitário usuário de drogas e
mais preocupado em levar as colegas para cama do que em estudar.
De outras, voltava para casa já um adulto e acabava transando
com a irmã (!).
As
histórias na universidade, em especial as que Fritz se exacerbava
contra o fascismo dos policiais dos EUA, foram ganhando fama e caindo
no gosto dos universitários reais. Crumb, então, não
teve dúvidas: resolveu escrachá-los também.
Mostrou um Fritz vagabundo, cheio de discursos vazios cujo único
propósito era ir para a cama com uma (ou mais) beldades do
sexo feminino, altamente volúvel do ponto de vista ideológico,
violento e muitas vezes sem propósito. Fritz chegou até
mesmo a se unir a um grupo de esquerda que planejava fazer atentados
terroristas em pontes dos EUA (menções a grupos radicais
reais, como os Panteras Negras, também nõ faltavam).
E
Crumb não parou por aí. Em uma história antológica,
transformou Fritz em espião e aproveitou para tirar sarro
do gênero 007 que mais fazia sucesso nos cinemas. Não
satisfeito, mandou
o agente Fritz para a China comunista, onde um cientista desenvolvia
uma moderna bomba movida "a chineses pedalando". E fez
Fritz virar um falso vendedor moralista de direita que só
quer mesmo é vender e se dar bem. E explorou sua relação
com as mais diversas mulheres animais que, na realidade, representavam
todos os tipos da mulher americana. E fez muito mais. Pense em qualquer
fato que represente o típico e hipócrita american
way of life e tenha certeza: Crumb e Fritz escracharam este
fato.
O
álbum lançado no Brasil pela Conrad (capa colorida,
miolo pb, 138 páginas em papel couchet, R$ 37,00) é
obrigatório na gibiteca básica de qualquer um que
goste, entenda ou queira gostar e entender de quadrinhos. Com um
capricho editorial pouco visto no Brasil, a Conrad reuniu dos primeiros
esboços de Fritz às histórias mais clássicas,
além da última HQ do personagem, na qual Crumb, impressionado
com o sucesso de Fritz e temendo pela integridade do personagem,
resolveu matá-lo. Mas de nada adiantou: Fritz já havia
se tornado maior que Crumb. E que todos os outros gatos antes e
depois dele.
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