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HQ Coisa - Março de 2003

Fritz, o gato da contracultura

Esqueça Garfield, Tom, Manda-Chuva, Ignatz, Rom-Rom, Mefistófeles, Cruel... Gatos nunca faltaram no mundo dos quadrinhos e dos desenhos animados, mas o felino que realmente fez a diferença nos Estados Unidos e no mundo chama-se Fritz, é cínico, vagabundo, adora orgias sexuais e, para a felicidade dos fãs, ganhou uma coletânea brasileira de suas melhores histórias, totalmente traduzidas em português, publicada pela Editora Conrad.

O gato Fritz, que não por acaso se tornou um ícone da contracultura estadunidense, foi criado em 1965 por Robert Crumb, autor de outros quadrinhos undergrounds igualmente ácidos, como Mr. Natural e Sis. Na verdade, Crumb já brincava com a idéia de um personagem gato em suas primeiras histórias produzidas no final dos anos 50, mas nada se compararia ao gato que fez sua estréia nas páginas da revista marginal Help.

Fritz é um gato antropomorfizado que representa um típico jovem dos anos 60 e 70. Nas primeiras histórias, aparecia por vezes como o universitário usuário de drogas e mais preocupado em levar as colegas para cama do que em estudar. De outras, voltava para casa já um adulto e acabava transando com a irmã (!).

As histórias na universidade, em especial as que Fritz se exacerbava contra o fascismo dos policiais dos EUA, foram ganhando fama e caindo no gosto dos universitários reais. Crumb, então, não teve dúvidas: resolveu escrachá-los também. Mostrou um Fritz vagabundo, cheio de discursos vazios cujo único propósito era ir para a cama com uma (ou mais) beldades do sexo feminino, altamente volúvel do ponto de vista ideológico, violento e muitas vezes sem propósito. Fritz chegou até mesmo a se unir a um grupo de esquerda que planejava fazer atentados terroristas em pontes dos EUA (menções a grupos radicais reais, como os Panteras Negras, também nõ faltavam).

 

E Crumb não parou por aí. Em uma história antológica, transformou Fritz em espião e aproveitou para tirar sarro do gênero 007 que mais fazia sucesso nos cinemas. Não satisfeito, mandou o agente Fritz para a China comunista, onde um cientista desenvolvia uma moderna bomba movida "a chineses pedalando". E fez Fritz virar um falso vendedor moralista de direita que só quer mesmo é vender e se dar bem. E explorou sua relação com as mais diversas mulheres animais que, na realidade, representavam todos os tipos da mulher americana. E fez muito mais. Pense em qualquer fato que represente o típico e hipócrita american way of life e tenha certeza: Crumb e Fritz escracharam este fato.

O álbum lançado no Brasil pela Conrad (capa colorida, miolo pb, 138 páginas em papel couchet, R$ 37,00) é obrigatório na gibiteca básica de qualquer um que goste, entenda ou queira gostar e entender de quadrinhos. Com um capricho editorial pouco visto no Brasil, a Conrad reuniu dos primeiros esboços de Fritz às histórias mais clássicas, além da última HQ do personagem, na qual Crumb, impressionado com o sucesso de Fritz e temendo pela integridade do personagem, resolveu matá-lo. Mas de nada adiantou: Fritz já havia se tornado maior que Crumb. E que todos os outros gatos antes e depois dele.

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