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Coisa - Fevereiro de 2002 |
Tom Strong
e o ABC de Alan Moore
Por
Delfin, especial para o MundoHQ
Nos
anos 80 o
escritor inglês Alan Moore fez vir à luz uma onda revolucionária
nos chamados quadrinhos de heróis, que em seguida foi chamada pela
grande imprensa de "invasão britânica". Sua influência praticamente
ditou novas regras para os roteiristas de todo o mundo, notadamente
os norte-americanos. E algumas de suas obras à época foram emblemas:
Watchmen, Miracleman, Monstro do Pântano.
Quem
mais senão ele mesmo para virar de ponta-cabeça o próprio monstro
que ajudou a criar, reintroduzindo a inventividade em um mercado
lotado de mutantes, universos paralelos e ressurreições estúpidas?
Moore, 48 anos, inaugurou em 1999 a sua linha de quadrinhos, a America's
Best Co-mics. Ou ABC, como prefere.
Revirando
ícones consagrados e distorcendo habilmente os clichês de histórias
de ficção e aventura construídos desde os anos 30, ele retrata em
cada uma de suas publicações diferentes abordagens e universos heróicos,
sempre priorizando a qualidade dos roteiros, bem como o inusitado
e o impred-zível.
E é esta nova revolução que o público brasileiro, após mais de dois
anos de espera, finalmente vai poder acompanhar. Quem vem com a
boa nova é a Pandora Books, que prevê para março a publicação da
primeira revista regular da ABC, Tom Strong, que reunirá, além do
personagem-título, a série policial Top 10.
Cada edição apresentará uma história completa de cada série, como
é a postura editorial da ABC. Em tempo: com esta linha de quadrinhos,
Alan Moore arrebanhou diversos prêmios importantes, entre eles o
Eisner e o Harvey, considerados respectivamente o Oscar e o Globo
de Ouro dos quadrinhos.
Em Tom Strong, com arte de Chris Sprouse, nos deparamos com um herói
centenário que vive com sua família, um gorila falante e seu mordomo-robô
em Millenium City, uma cidade futurista ao extremo, vivendo aventuras
dignas dos melhores pulps (os livrinhos de aventuras que até hoje
podemos encontrar nas
bancas), lutando contra astutos inimigos utilizando principalmente
suas maiores armas.
Que,
ao contrário do que o título sugere, são a ciência e a inteligência.
Mas sempre com muita ação. Já a segunda série, Top 10, pode ser
mal-definida como uma mistura de séries policiais baratas de tevê
com, digamos, os Superamigos.
Neste universo, absolutamente todas as pessoas possuem algum tipo
de super-poder ou excepcionalidade. E é necessária uma força policial
especializada para cuidar dos problemas que esta situação traz,
como colisões dimensionais, disputas entre deuses rivais, ameaças
alienígenas ou uma captura a um assassino serial. E tudo dentro
da mais perfeita normalidade, pois, para os policiais do 10º Distrito
de Neópolis, esta é a condição real.
A Pandora já havia publicado há alguns meses a premiada minissérie-prelúdio
da ABC,
As
Aventuras da Liga Extraordinária, também de Moore, que relata
as histórias dos maiores heróis ingleses do fim do século XIX. Uma
inusitada reunião vislumbrada pelo autor a partir de suas pesquisas
sobre a época, realizadas para a manufatura de outra grande obra
recentemente adaptada para o cinema, Do Inferno.
Segundo
Maurício Muniz, editor da Pandora, a postura da editora é continuar
publicando quadrinhos de qualidade para os leitores que ficaram
órfãos das boas histórias de heróis. E parece mesmo ser verdade:
a editora promete o lançamento de mais dois títulos de peso, ainda
no primeiro semestre: Planetary, de Warren Ellis, e Crimson, de
Humberto Ramos.
Embora
o formato das revistas possa ser reduzido em relação ao original
(o que prejudica um pouco a arte das revistas, mas reduz seu custo
ao leitor), isto não minimiza o lançamento, no qual o Alan Moore
nos pega pelas mãos e nos ensina, página a página, esta nova cartilha
de super-heróis e aventura, demolindo e ao mesmo tempo reconstruindo
as estruturas narrativas, o que ele faz como poucos.
Aos
leitores resta ler com atenção as palavras do mestre... e curtir.
Pois o que vemos ainda são heróis, sem dramalhão, com reflexão,
e acima de tudo a serviço de nosso entretenimento. Palmas a isto!
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