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Um
sonho de entrevista
Delfin
Especial para o HGB
Delfin
- Agora...
Neil
Gaiman - Ok. Mas pergunte bem rápido.
(falando
rápido)
Nããããão,por favor! (risos) Eu tenho que ler
as perguntas. É muito difícil para mim.
Não se preocupe
Uma vez você disse algo como: "Uma boa história
é uma questão de saber onde pará-la". A morte do Sandman, como o
conhecemos, foi boa para a história?
Sim. Oh, bastante! That was what the story was all always, always
going to be about. Eu era a única pessoa que sabia disso porque
esta é a graça de escrever uma série de ficção. Mas isso sempre
era pra ser a história de alguém que era essencialmente um suicida.
É a história de alguém que era para estar apenas pronto para mudar
muito, e eu construí. Eu me lembro do Sandman número 46, no meio
de 'Vidas Breves', e existe um ponto lá, ao longo da edição (e até
aquele ponto eu poderia ter mudado de idéia) que diz: 'Ok, vamos
começar com ele agora. Oh, vamos procurar por Destruição', diz Delírio,
depois deles já terem estado divididos uma vez. E então Sandman
volta atrás e diz 'Está bem, vamos fazer isto'. E assim eles vão...o
resto é história. Tudo agora era inevitável. E ninguém sabia a não
ser eu. Você sabe, é como um truque com cartas, e eu apenas joguei
minha última carta, mas ninguém sabia que ela estava apenas virada,
ninguém sabia que o truque agora já tinha sido feito. E agora era
tocar outras trinta edições para que todo mundo visse o que aconteceria.
Tenho um amigo que diz que cada número de
Sandman é um tipo de metáfora do universo dos quadrinhos, do universo
dos super-heróis, por causa da vida e da morte dos personagens,
da finitude deles.
Bem, isso era definitivo, este nível definido quando criamos algo
como Sandman. Você sempre está jogando um jogo decisivo de expectativas.
Eu amo o fato que em Sandman 'se eu mato alguém ele continua morto'.
Durante toda a série, pessoas foram mortas, pessoas ficavam mortas,
porque nos quadrinhos todo mundo volta. Eu gostava do fato de que,
quando eles morriam, eram trocados por alguém parecido com eles,
num uniforme não muito diferente. Porque isto é o Sandan... isto
é... Isto são os quadrinhos, mas estava tentando dar àquele ideal
dos quadrinhos que passamos algum sentido real.
Com
Sandman e Livros da Magia, você virou uma espécie de mentor do universo
místico DC-Vertigo... Me desculpe por isso, eu acho.
Mas... você se sente ligado a este universo...
não apenas pelo dinheiro?
Eu definitivamente... sabe, porque... Me sinto gentilmente
como um padrinho ou algo do tipo, eu... Sabe, Alan Moore veio antes
de mim, e Alan Moore realmente definiu muito do conteúdo com coisas
que eu certamente tirei proveito e construiu um mundo que funciona
e criou todas as coisas mágicas. Eu ainda não sei... exste um nível
que não é intencional, eu nunca vi Sandman como algo que pudesse
se subdividir em duzentos quadrinhos. Quando Livros da Magia
(a série mensal) foi cancelada e o quão de quarta categorias foram
essas coisas. Eu poderia estabelecer Vertigo como um estilo editorial,
e eu ainda não estou certo se isso é algo bom ou ruim a ser feito.
As novas séries... A continuação de sua criação
foi ficando pior, pior, pior, até o cancelamento dos títulos...
Isso dói?
Oh,
sim, digo, com The Dreaming - O Reino do Sonhar (que publicado
no Brasil por Tudo em Quadrinhos e Atitude), eu não sei porque eles
fizeram o que eles fizeram. Todo mundo queria parar no número 50.
Mas estava vendendo. E isso foi estranho, eles disseram 'Deixe parar
no número 50. Está vendendo em malditos 50 edições, vamos chamar
isso de uma obra completa'. Então de repente eles foram... quando
chegamos ao 50, disseram 'Vamos voltar atrás e deixar rolar'. Este
foi realmente o momento onde as vendas foram ficando seletivas por
pessoas que chegaram nos últimos dez números como que achando 'O
que é que está acontecendo agora?' E... Caitlín (R. Kiernan, escritora
de The Dreaming) já estava muito cansada então de repente hesitou
e começou tudo de novo. Mas me agrada... A coisa com que estou mais
feliz é Lucifer (Sandman Apresenta: Lucifer, que teve uma
edição publicada pela Brainstore no país), pois eu sinto que ele
é realmente um grande gibi.
Muitos amigos perdidos...
Não é sobre Sandman e aquele mundo, e assim por diante sem parar,
é como... algo que eu gosto de ler, então eu leio... e não há muitos
quadrinhos por aí que eu gosto de ficar lendo. Então estou muito
agradecido por este em particular.
Você lê muitos quadrinhos? Você tem tempo
para ler quadrinhos?
Não tenho tanto tempo quanto eu gostaria, e o que assusta é se...
Quando estou fora, por vezes os livros da DC, quadrinhos da Dark
Horse, chegam. E se não dou uma olhada neles imediatamente, eu posso
nunca pegá-los, o que é realmente triste. Isto porque existe muito
tempo em um dia...
Você
falou sobre Alan Moore. Você acha que
os direitos do Miracleman, que foram dados a você por Moore,
foram uma espécie de presente de grego?
Sim! Sim, eu, eu... Olhando pra trás, realmente foi como, você sabe…
Sou muito orgulhoso do Miracleman de muitos modos apenas por poder
escrever algumas histórias realmente muito boas, e eu sou muito,
muito orgulhoso deste personagem. Mark (Buckingham, desenhista de
Miracleman em suas últimas edições) e eu fomos trapaceados pela
Eclipse... Ahn... Consistentemente a Eclipse
viria a quebrar porque se descobriu que ela trapaceou com todas
as coisas.
E então você tem todo o problema com Todd McFarlane.
Todd McFarlane é muito, muito estranho. Ele chegou clamando pelo
poder dos direitos dos criadores e todas as coisas legais e então
se tornou a primeira companhia de quadrinhos a não pagar royalties.
Você sabe, Todd não paga royalties, Todd não dá qualquer declaração.
Você sabe da capa de Hellspawn #13 (em que
aparece pela primeira vez o uniforme do Miracleman num quadrinho
de Todd McFarlane)?
Eu não vi ainda, mas eu sei sobre isto. Isto me deixa muito triste.
Ele tem os direitos de publicar isto?
Eu não sei, eu não acho e, de repente… Eu tenho um terço do Miracleman.
Mas Buckingham tem um livro só sobre isto…
Ok!
… Licenciamento ou algo assim. Mas Todd é… Todd é um encrenqueiro,
Todd é um homem que pagou 3 milhões de dólares por uma bola de beisebol.
Seu valor era cem mil dólares. E sua atitude é 'Eu sou grande o
suficiente, então eu posso fazer isso. E se você quiser vir me processar,
eu tenho advogados maiores'. O que eu acho uma atitude realmente
estranha, é como... você sabe, não é… não é uma atitude de um adulto.
Explique uma coisa pra mim, que eu nunca entendi…
Quando Moore deu os direitos pra você, ele deu os direitos, mas...
e os direitos de Gary Leach…
Não, os direitos de Gary Leach, Dez Skinn foram para a Eclipse.
Oh! Eles venderam para a Eclipse.
Então a Eclipse tinha dois terços dos direitos do Miracleman, Alan
Moore tinha um terço. Alan deu seu terço para mim e Mark Buckingham.
E os direitos originais do criador do Miracleman, acho que é…
Mick Anglo.
Mick Anglo, isso. Eu não sei o que aconteceu com isso. Como Alan
diz, é um lindo veneno para nos matar. Estranho…
Existe
uma editora brasileira que vai publicar "The last temptation", obra
sua com Alice Cooper…
Sim!
Você foi ex-repórter da… Rolling Stone?
Não, de várias revistas inglesas, (porém) nunca fiz nada
para a Rolling Stone. Mas você tem várias conexões com o mundo da
música.
Isto
influencia seu trabalho de que modo?
Eu não sei, é difícil dizer, a música sempre está junto comigo em
tudo que eu faço. Uma música silenciosa, de certo modo. E eu ainda
escrevo canções, ainda tento novas músicas. A maior parte de American
Gods é pegar todas as permissões para publicação de letras de vários
artistas (por exemplo, Tom Waits). Sempre olho para as canções que
se desenrolam durante American Gods. E você tem que pedir as permissões
de uso para chegar a (usar) elas.
É seu primeiro trabalho solitário, sem colaborações.
Existe algum tipo de recompensa nisso
ou você sentiu falta da troca e da soma de informações que normalmente
acontecem em outros trabalhos seus, com outras pessoas?
Eu acho que a coisa da qual mais senti falta foi justamente o fato
de ninguém estar lendo aquilo. Porque normalmente, quando eu faço
qualquer coisa, existe pelo menos um leitor. Em Neverwhere eu
escrevi os roteiros, então tinha um monte de gente lendo os roteiros
que eu fiz. Então, com American Gods eu sentei e escrevi... Eu escrevi
um romance de 500 páginas. Então, é como se ninguém mais estivesse
lendo. Os meses passavam, as semanas passavam, e afinal os anos
passavam, pessoas passando, qual o sentido disto? Se não vemos nada
disto por um tempo, talvez isto não funcione, mas eu não sei mesmo
o que isto significa.
Por
causa disto você escreveu o B-Log (diário digital on-line)?
O B-Log foi criado na primeira vez que o livro foi entregue porque…
Penso que isto é… muito interessante. Mas ninguém realmente sabe,
a não ser os escritores, o que acontece entre a entrega de um livro
e a publicação dele. Muitas pessoas pensam nisto. Mas seu tipo de
pensamento é: 'Oh, um escritor entrega um livro, então o que ele
gostaria de fazer é a festa de lançamento'. E meses depois, no entanto,
é o livro, ele segurando o livro em suas mãos (diz ele, segurando
a única cópia existente de American Gods até o dia da entrevista).
Ninguém sabe, mas é demais parar o que se está fazendo entre os
lançamentos. Então este é o verdadeiro motivo de eu ter precisado
descarregar o b-log, eu gostei particularmente de coisas como explicar
como é revisar tudo, como é o processo da assinatura (de contrato),
então é isso... Isto é um tipo de... registro público. E você não
sabe nem ao menos quem lê! Isto é estranho. Fiz isso e no primeiro
mês eu disse: 'Tem alguém lendo isto aqui?' E então me responderam
(os provedores do site Blogger) e me disseram: 'Nós podemos contar
algo como 5000 hits'. E no próximo mês, eu disse: 'Tem alguém lendo
isto aqui?' e eles disseram: 'Computamos mais ou menos 20000 hits
individuais'. Achei bom, vamos lá, você sabe, terceiro mês... 'Tem
alguém lendo isto aqui?'... Disseram: 'Oh, sim! Está em torno de
250.000 pessoas'. Então era como se, de repente, todo mundo no planeta
soubesse que Neil Gaiman era um Blogger.
(a assessora de imprensa me interrompe: tenho
direito a apenas mais uma pergunta) Bem, só dá tempo pra mais uma...
Sandman, de novo. Ele tende a se tornar um estigma em sua carreira.
Muitas pessoas não gostam disso porque por ver toda a sua obra reduzida
apenas a uma parte de seu trabalho. E você, o que pensa a respeito
deste estigma?
Bem, se eu for conhecido por Sandman, tudo bem! Se eu for conhecido
por American Gods, tudo bem! Se eu for conhecido por The Day I Swapped
My Dad for 2 Goldfish, tudo bem também. Todos eles são bons trabalhos
para serem reconhecidos, ou não reconhecidos, quem sabe? Para mim,
importa que gosto de meus leitores.
Ok. É isso. Obrigado, Neil.
De nada, sinta-se sempre bem-vindo.
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