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Um
sonho de entrevista
Delfin
Especial para o HGB
Desta
vez a minha missão era mais complicada que as demais. O entrevistado
era o escritor inglês Neil Richard Gaiman, um escorpiano de 40 anos
de idade. Por ser escorpiano, já fiquei ao mesmo tempo com certo
receio e entusiasmo. Ele, simplesmente o autor da obra mais premiada
dos quadrinhos dos EUA (e talvez do mundo) até hoje, estaria frente
a frente comigo durante um brunch num hotel de luxo próximo à Avenida
Paulista, no coração paulistano. Chegaria ao hotel uma hora antes,
para tomar contato com seu livro "Sandman - o livro dos sonhos",
lançado aqui no Brasil pela Editora Conrad, que trouxe o escritor
ao país para sessões de autógrafos no Rio e em São Paulo. Era respirar
fundo, pegar o ônibus em Campinas e pensar, durante a viagem, em
ser profissional como sempre. Afinal de contas, era dia 22 de maio.
E 22 é o meu número de sorte. Uma coisa que todos devem ter noção
é que de vez em quando é difícil para um jornalista se despir do
véu de fã ou tiete. Às vezes não acontece, e isto pode ser terrível.
Como pessoa que gosta de quadrinhos bem escritos e bem feitos, é
impossível não admirar o trabalho de Neil Gaiman. Mesmo com pouca
coisa publicada em terras brasileiras, seu currículo é vasto e brilhante.
Séries como Violent Cases, Mr. Punch, Signal
to Noise, Miracleman, marcam uma carreira calcada em boas
histórias. Nem tudo foi sucesso desde o início para Gaiman. Afinal,
ele já teve que escrever, para juntar grana nos anos 80, uma malfadada
biografia para os astros-neo-bregas do Duran Duran. Como ele mesmo
diria no futuro, são duras as coisas que se faz quando se precisa
de dinheiro. Para sorte do mundo, ele já pode trabalhar escrevendo
apenas sobre o que gosta há muito tempo. Por exemplo, seu novo livro,
American Gods (Deuses Americanos), que será lançado em poucas semanas
nos EUA, é seu primeiro trabalho sem absolutamente nenhuma colaboração
durante sua produção. E, eu descobriria
mais tarde, ele possuía a única cópia existente do livro até a data
da realização da entrevista. Que, aliás, atrasou. Explico: chegando
ao hotel, relaxado, vestindo o chapéu do jornalista, descubro que
o brunch havia se transformado num almoço a ser realizado à uma
da tarde. O evento, reunindo uns poucos jornalistas, alguns empresários
de quadrinhos e boa parte do staff da Conrad, teve seu cronograma
alterado em virtude dos extensos chats realizados por dois provedores
paulistanos na noite anterior. Assim, esperei pacientemente. Mas
por pouco tempo. Aproximadamente ao meio-dia, subindo as escadas
à minha frente, vinha aquela figura de cabelos meio compridos e
toda de preto, já com alguma barriga, mas ainda magro. Lembrava
uma versão decadente do Joey Ramone, de jaqueta velha e coturno
nos pés. Foi apresentado por Cassius Meduar a diretores da Conrad,
com os quais eu conversava. Neil olhou fixo para mim, pois, afinal
de contas, quem era eu então? "Oi, sou só um amigo". "E qual é o
seu nome?", perguntou Neil. "Sou Delfin", disse. E ele, estendendo
sua mão direita, disse calmamente: "Oi, eu sou Neil". A entrevista
só veio a acontecer duas horas depois, após um belo almoço e uma
fila de cinco jornalistas. A paciência de Gaiman se mostrava inabalável.
Sempre sorrindo, disposto, cordial, dizendo seus "you know" (você
sabe) com a mesma freqüência com que se fala "né" e não se negando
a responder qualquer pergunta, ele já chegou brincando, realmente
pronto para enfrentar meu inglês macarrônico. O
que você vai ler agora é a íntegra deste bate-papo, que, entre outras
coisas, versou sobre batatas quentes, Todd McFarlane, música, literatura,
quadrinhos e, é claro, Sandman. Com vocês,... you know... Neil Gaiman
Nota
do Delfin:Colaboraram no processo de transcrição - e tradução do
meu inglês macarrônico - : Moema Joffily Dias, Camila Galheigo Coelho
e Pedro Gabriel Galheigo Coelho. Tô devendo uma pra vocês (mas cobrem,
minha memória é péssima!)...
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