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Moebius
brasileiro
O carioca Léo, desconhecido
no Brasil, conquista os franceses com sua HQ Aldebaran
Pergunte
a qualquer fã de ficção científica do planeta sobre Aldebaran e
a maioria vai lembrar a trilogia Guerra nas Estrelas ou,
se tiver conhecimentos de astronomia, dirá que se trata de
uma estrela gigantesca, quase 40 vezes maior do que nosso Sol.
Pergunte
a um leitor de quadrinhos franceses, no entanto, e ele lhe dirá
que se trata da série que ficou com o primeiro lugar na lista dos
20 melhores álbuns de Bande Desineé (como chamam-se as HQs
em francês) lançados em 2000. E que o autor da série chama-se Leo
(na verdade Luís Eduardo
de Oliveira) e é brasileiro.
Nascido no Rio de Janeiro e formado em engenharia mecânica em Porto
Alegre, o quadrinista Léo é totalmente desconhecido pela quase totalidade
de seus conterrâneos. Ou pelo menos era , até julho de 2006,
data em que a editora Panini resolveu lançar no mercado brasileiro
a série Aldebaran (o primeiro número, com 98 belíssimas
páginas coloridas, pode ser encontrado por R$ 22,90 nas bancas).
Na
França, Leo é cultuado como autor de uma das melhores séries de
fantasia e ficção dos últimos tempos, título que ele modestamente
acha ser exagerado. Aldebaran conta a história dos primeiros colonizadores
interplanetários saídos da Terra e mostra o desbravamento de um
planeta com uma fauna exuberante, em um planeta estranho e quase
todo aquático.
O
desenho de Léo remete ao de Moebius, autor que na década de 70 consquistou
o mundo com suas histórias de ficção publicadas nas revistas Pilote
e Metal Hurlant, que viriam a ganhar versão globalizada na
famosa Heavy Metal (entre as HQs de Moebius detacaram-se,
por exemplo, O Incal, Garagem Hermética e a filosoficamente
engraçada O Homem é Bom ?). Por isso mesmo, Leo, que concedeu
entrevista exclusiva ao Mundo HQ, já está sendo chamado como O Moebius
Brasileiro.
HGB
- Como você começou sua carreira nas HQs ? E como foi parar na França
?
Leo - Depois de uns rolos políticos na época da ditadura, tive de
abandonar meu trabalho de engenheiro. Comecei então a desenhar pra
sobreviver (fazia ilustrações), pois eu sempre desenhei bem, desde
criança. A partir de uma certa época, enfiei na cabeça que o quê
eu queria fazer mesmo era história em quadrinho. Mas HQ de qualidade,
como eu tinha visto numas revistas francesas (Pilote, Metal Hurlant)
nos anos 70. Um dia, então, decidi largar o meu emprego, vender
tudo e me mandar pra França. Isso foi em 1980.
Como
você definiria Aldebaran ?
Aldebaran conta uma história de amor entre dois adolescentes.
Só que essa história se passa no futuro e num outro planeta, o primeiro
que a Terra tenta colonizar. E lá eles encontram problemas: acidentes
repetidos nos vôos interestelares obrigam a Terra a suspendê-los
até que se descubram as causas. Mas o tempo passa e a coisa não
avança. Resultado: os primeiros colonos chegados no planeta vão
ficar isolados, sem qualquer contato com a Terra. Quando a narrativa
começa, faz mais de um século que o contato com a Terra foi rompido.
Aí então…é muito longo pra resumir. E eu iria estragar a história…
Faça um esforço, olhe as imagens, compre um dicionário e confira
a história. Afinal francês não é tão dificil assim ! (n. da r.
: com o dicionário é possível ler a sinopse dos álbuns na
página da série).
Como
você se sente sendo cultuado na França, um país com tradição em
HQs de fantasia e ficção ?
Minha série está fazendo um certo sucesso aqui, é verdade, mas dizer
que eu e minha série somos cultuados é exagero. Até agora nenhum
álbum meu foi traduzido em português, mas soube recentemente que
Aldebaran deve ser publicado em breve em Portugal, o que significa
que chegaria também no Brasil).
Como
é ser quadrinista na França?
Depois que você começa a publicar regularmente e que a tua série
vende bem, tua vida pode ser boa, mas com um ritmo de trabalho adoidado.
Mas chegar a ser publicado é que são elas. A concorrência é enorme
e a qualidade dos desenhistas é de dar desespero. Eu levei dez anos
pra conseguir começar a publicar regularmente e poder viver só de
HQ.
Quais
são suas influências ?
No desenho é o Moebius, claro. É o grande mestre, insuperável e
que melhora a cada dia. No roteiro são
outros, vários outros. Mas é mais difuso, eu não saberia citar nomes.
Você acompanha quadrinhos no
Brasil ?
Não acompanho nada do que se passa no Brasil, não conheço mais ninguém,
virei um francês mesmo. Na minha época, nos anos 70, eu admirava
caras como o Luiz Gê, o Laerte, os irmãos Caruso.
E quanto a voltar para cá, ter Aldebaran publicado
por alguma editora brasileira ? Você pensa nisso ? (n. da
r.: entrevista dada antes do lançamento em português)
Não, não penso em voltar ao Brasil. Gosto muito da França, de Paris,
e como estou aqui a fazer o trabalho que eu sempre sonhei fazer,
e com sucesso, por que ir embora ? A venda das minhas histórias
a editores estrangeiros não depende de mim: só a minha editora (Dargaud)
que tem o direito legal de tratar esses assuntos. Eles tentaram
e tentam regularmente vender minhas séries a editoras brasileiras,
mas sem sucesso até agora.
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