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HQ Coisa - Novembro de 2000 |
'O
Coringa é muito mais interessante que Batman'
Jerry Robinson, criador de Robin, Mulher-Gato, Pinguim e Coringa,
visita o Brasil e diz que estão transformando o menino-prodígio
em travesti
Aos
17 anos, o desenhista norte-americano Jerry Robinson foi o responsável
pela criação do primeiro "assistente de herói" que se tornou tão
famoso quanto o personagem principal: Robin, o menino-prodígio.
Aos 78, Jerry, que visita o Brasil pela quarta vez, não gosta muito
do rumo que o garoto tomou.
Tampouco
está feliz com o que fizeram com outros personagens desenvolvidos
por ele para as HQs de Batman, como Mulher-Gato e Pinguim - a única
exceção, talvez, seja em relação a seu filho predileto, o Coringa.
"Mas todos estão muito próximos de se tornarem uma piada", diz,
fazendo um trocadilho com a palavra "piada" em inglês (joke) e o
nome original do Coringa (Joker), para logo a seguir explodir em
risos ao dizer que endossa uma opinião que ouviu no Brasil: "Estão
transformando Robin em um travesti."
Jerry Robinson está em São Paulo até o início
de dezembro, para acompanhar o lançamento do documentário A Vida
Após Batman, quarto episódio da série Profissão Cartunista,
que será levado ao ar no dia 1º de dezembro de 2000 pela TV Senac
de São Paulo. Atualmente, Jerry, é presidente da Cartoonist & Writers
Syndicate, uma
distribuidora internacional de cartuns que tem em seus quadros
até mesmo alguns artistas brasileiros, como Ziraldo, Ique e os irmãos
Paulo e Chico Caruso.
O pai de Robin diz que não lê mais muitos quadrinhos, mas recentemente
ajudou a desenvolver uma nova personagem no Japão, batizada de Astra.
A seguir, em entrevista exclusiva concedida por telefone do quarto
onde se hospedou no Maksoud Plaza, Jerry Robinson fala sobre as
origens de Robin, do Coringa e muito mais.
Antes,
porém, um parêntese ao leitor desavisado: o Robin criado por Jerry
chamava-se Dick Grayson e os editores e argumentistas da DC Comics
o transformaram em um novo herói quando ele cresceu, chamado Night
Wing (à esquerda, abaixo). Batman teve um segundo Robin,
Jason Todd, que morreu nas mãos do Coringa, e atualmente está no
terceiro, o pós-moderno Tim Drake (à esquerda, acima)...
Mundo HQ - O senhor criou Robin e hoje ele é Night Wing, um herói
cabeludo de colante. Mulher-Gato era uma vilã sensual, mas hoje
é quase uma heroína e parece um outdoor de implante de silicone.
Como o senhor se sente quando vê estes personagens hoje?
Na verdade eu procuro não vê-los mais. Acho que todos eles estão
se tornando uma grande piada. Concordo com o que me disse alguém
aqui no Brasil, que eles (os argumentistas e editores da DC Comics)
estão fazendo de Robin um travesti (risos). Existe um novo público
de quadrinhos e os novos escritores e editores querem deixar sua
marca, fazer algo dramático, incrementar vendas.
Mas
como o senhor se sente em relação a isso?
Como eu disse, eles querem deixar sua marca. Agora, se é bom?
Bem, isso eu deixo a cargo dos leitores.
Em
1954 o psicólogo Frederick Werthan lançou o livro A
Sedução do Inocente, no qual afirmava que os quadrinhos eram
responsáveis por crimes e "desvios sexuais", e dizia Batman e Robin
eram um casal gay. O livro fez com que HQs fossem queimadas e gerou
o código de
censura nos quadrinhos americanos. O que o senhor, que criou
Robin, achava das afirmações?
O livro todo era muito estúpido e sem nenhuma base científica.
Werthan foi apresentado como um renomado psicólogo ou psiquiatra,
coisa que não era. Na verdade eles (o governo) estavam tentando
achar alguma razão para aquilo e queriam culpar alguém ou alguma
coisa. Os quadrinhos foram o bode expiatório.
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| A
estréia do Coringa, no gibi Batman número 1, de
1940: o palhaço do crime |
Um
dos personagens mais fantásticos - até hoje - que o senhor já criou
foi o Coringa. Como ele surgiu e como o senhor teve a idéia para
o visual dele?
Queria um novo super-vilão. Naquela época todos eram gangsters
e bandidos comuns. Eu já estava na faculdade e sabia por meio de
várias leituras de mitologia que todo herói tem de ter um antagonista
e eu queria que este vilão fosse memorável. Um personagem memorável,
por sua vez, tem de ter contradições em sua persona. Então, como
na época eu escrevia alguns textos cômicos, surgiu a i'deia de um
vilão com senso de humor. O nome tinha de ser forte e Joker (piadista/Coringa)
veio naturalmente e imediatamente eu associei este nome com a carta
de baralho. O visual, então, foi basado na carta de baralho clássica
do Coringa: cara branca, cabelos verdes, sorridente. Os autores
que me sucederam criaram uma explicação para o rosto branco
(nota da redação: o Coringa teria caído em um tanque de ácido em
um ataque fracassado, o que gerou uma alteração de pele). Eu,
no entanto, nunca teria explicado. Permaneceria um mistério.
O
senhor gosta dele?
O Coringa é muito mais interessante do que o Batman (risos).
Mesmo porque um herói tem de ser sempre... um herói. Não dá para
fugir muito daquilo. Já um Coringa...
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| Robin
aparece pela primeira vez, no gibi Detective Comics número
38, de 1940: Menino- Prodígio |
E
quanto ao Robin? Aqui no Brasil um jornal afirmou que o senhor,
que hoje é uma lenda das HQs, teria colocado este nome nele já naquela
época para se auto-homenagear...
(Risos)
Não, eu não dei o nome por minha causa. Esta entrevista à qual você
se refere foi feita por telefone de Nova York para o Brasil e provavelmente
a pessoa entendeu errado minha resposta. Quando criei o Robin eu
tinha 17 anos era muito jovem para ser uma lenda (risos). Seria
muita presunção da minha parte naquela época dar meu nome ou parte
dele a um personagem. Além disso, eu trabalhava com grandes artistas
como Will Eisner, Bill Finger e Bob Kane, e eles eram mais velhos
que eu, tinham seus 25 anos. Por isso eu queria sempre parecer mais
velho, mentia a idade, e não colocaria meu nome em um personagem
que era chamado de garoto-prodígio (boy wonder, em inglês).
Robin ganhou seu nome por causa de Robin Hood. Isso porque eu era
fã deste herói arqueiro quando jovem e inspirei as roupas do personagem
em desenhos que o ilustrador M.C. Wyatt havia feito para o livro
de Robin Hood que li na minha infância. Então a história de eu ter
dado meu nome é boa e engraçada, mas não é verdadeira.
O senhor lê ou faz quadrinhos atualmente?
Não leio mais gibis, mas estou envolvido com cartuns. Sou presidente
de uma distribuidora que representa inclusive artistas brasileiros
como Ziraldo, Ique e Chico Paulo Caruso. Mas, recentemente, criei
em co-autoria com a quadrinista Sidra Cohn uma super-heroína chamada
Astra, que foi lançada no Japão. Ela veio de um planeta onde só
restaram mulheres, em busca de um parceiro, mas os terrestres acabam
explorando-a por terem interesses na tecnologia e conhecimentos
que ela possui. É uma história que mostra do que realmente é feita
a civilização da Terra. Por enquanto só é publicada no japão, mas
estamos levando-a para os EUA e me agradaria muito ver a personagem,
que é baseada em um musical, no Brasil.
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