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Doutor
Estranho em
O
DEUS DA DOR
por
Gian Danton
(clique para ler os capítulos
anteriores)
O
deus da dor - parte 3
O
Doutor entrou no velho palácio, que o velho chamara de Biblioteca
da Dor. A construção era circular e em toda a extensão da parede
havia estantes repletas de livros antigos e empoeirados. Havia também
pergaminhos e códices. Sustentando a construção, várias colunas
de pedra.
O Doutor se aproximou de uma delas e examinou-a . Era repleta de
figuras em alto relevo à moda asteca. Elas mostravam guerras, prisioneiros
sendo levados amarrados e sacrifícios. Sacerdotes erguiam sobre
suas cabeças adagas rituais, prontas para descer sob as vítimas.
Abaixo do altar escorria um verdadeiro rio de sangue. Figuras em
destaque simbolizavam crianças sendo mortas, lágrimas escorrendo
pelas suas faces e indo regar plantações.
Horrorizado,
o Doutor Estranho desviou sua atenção dos pilares e se voltou para
os livros. Foi caminhando pelas prateleiras e olhando as bordas.
Ao fim de uma longa pesquisa, levou uma dúzia de livros para a mesa
e começou a ler. A busca não se revelou infrutífera. A resposta
estava na civilização asteca. Os astecas acreditavam que o mundo
havia sido criado e destruído inúmeras vezes.
A
cada destruição, os deuses sofriam para reconstruir todas as coisas.
Portanto, a única forma de impedir a quinta e última destruição
era a dor humana. Para ajudar os deuses a manterem o universo, os
astecas faziam milhares de sacrifícios humanos. As vítimas eram
levadas ao grande templo de Tenochititlan e sacrificadas em altares
no topo de escadarias. Os sacerdotes abriam o peito das mesmas e
arrancavam seu coração.
A cada 52 anos, os dois calendários astecas (o dos agricultores
e o sagrado) se encontravam. Havia cinco dias de diferença. Durante
esses cinco dias, o mundo poderia acabar. As pessoas ficavam dentro
de suas casas, trancadas, escondendo-se de forças poderosas e malignas.
As mulheres grávidas eram vigiadas. Se o mundo fosse acabar, elas
seriam tomadas por demônios e devorariam as pessoas de sua família.
As crianças eram mantidas acordas. Se dormissem, poderiam se transformar
em ratos. Todos os fogos eram apagados e a civilização mergulhava
na escuridão. Os sacerdotes vistoriavam os céus, à procura das plêiades.
Se elas aparecessem, o mundo estava salvo. Então um homem era sacrificado.
Um
fogo era acesso sobre seu peito. Pequenos gravetos com esse fogo
novo eram levados a todas as casas. A dor era um elemento essencial
da sociedade asteca. O mundo havia sido destruído em meio à dor.
Para reconstruí-lo, os deuses doavam seu sofrimento. E a dor de
cada ser humano era necessária para que o mundo sobrevivesse. A
dor era tão importante que era representada por um deus, Textoclal.
Os registros históricos sobre Textoclal são mínimos justamente por
sua importância. Ao contrário do que acontecia com outros deuses,
as cerimônias de Textoclal eram secretas e delas só participavam
os sacerdotes.
Uma criança era sacrificada e suas lágrimas espalhadas pelos campos,
para fertilizá-los, pois a vida só nasce da dor. H.P. Lovecraft
diz que o deus não apenas presidia a dor, como também era o seu
depositário: "Por eras e era, muito antes que o homem se levantasse
acima dos pântanos e criasse civilizações, Textoclal já sofria.
Dizem os homens sábios que Textoclal é capaz de sentir a dor de
cada um dos seres, a qualquer momento".
Jorge
Luís Borges afirma que o culto a Textoclal foi o único que sobreviveu
à conquista espanhola: "Nas noites frias de inverno eles se reuniam
em locais que a lembrança já não mais alcança e se flagelavam, chorando
por seu deus e pelo fim de sua civilização".
Para
os astecas, só o que restou de seu mundo, após a chegada dos espanhóis,
foi a dor. Entretanto, o culto entrou em decadência no final do
século XVIII, até que ninguém mais se lembrasse dos velhos deuses.
Entretanto, havia Maria. A menina, era atrás, havia sido levada
a um altar e morta ali. Que idade tinha? Três? Quatro anos? Sem
compreender o que acontecia, ela se agarrou à única coisa palpável:
a dor.
À
medida em que perdia adeptos, Textoclal se firmava na pequena Maria,
no seu sofrimento. Quando finalmente a menina reencarnou, Textoclal
o fez com ela. De repente algo aconteceu. A realidade mais uma vez
se alterou. Tudo à volta tornou-se um túnel escuro e tenebroso,
que sugava com a força de tufões. O vento forte soava como fantasmas
uivando e gritando. Com grande esforço, o Doutor estranho se agarrou
às bordas do túnel e, apesar da ventania, conseguiu perceber que
algo se aproximava. Parecia um ser humano, mas era muito maior e
deformado.
Ele
avançava lentamente, cocheando. A coisa era formada por cabeças
e corações humanos, que gemiam e se lamentavam. Sangue escorria
da boca entreaberta da criatura. Aquele era Textoclal.
O
deus da dor - Parte 4
O aspecto da criatura era disforme e mostruoso. Assustado, o Doutor
Estranho emitiu um ataque repentino e avassalador. A criatura gemeu,
contorcendo-se de dor. O ataque teria sido suficiente para destruir
monstros ou demônio de muito maior poder, mas, surpreendentemente,
Textoclal, embora urrasse de dor, parecia mais forte e mais poderoso.
Seu tamanho se tornou descomunal.
Strange percebe, então, seu erro. Combater o deus da dor provocando
dor era como tentar matar um peixe jogando-o na água. Mas a revelação
veio tarde demais. O monstro se aproximou e agarrou Strange. Uma
dor lancinante tomou conta do corpo do Doutor. Sua única chance
era tentar esquecer a dor e concentrar suas forças em um último
encantamento.
Suas
mãos espalmadas emitiram uma luz que envolveu Textoclal. O monstro
não urrou de dor, como da última vez. Ao contrário. A ventania amainou
e ele depositou Strange calmamente no chão. Os gritos de supliciados
cessaram e o ambiente foi tomado por uma música suave e relaxante.
Lágrimas se misturaram ao sangue e ao pus nos olhos do monstro.
O deus estava chorando.
Ele
se aproximou de Stephen e implorou:
-
Mate-me! Acabe com meu sofrimento!
O
Doutor Estranho abriu sua capa e revelou, em seu peito, um enorme
talismã. Era o Oho de Agamoto. O olhou brilhou e emitiu um redemoinho
de luz que envolveu Textoclal, sugando-o. Primeiro houve um silêncio
assustador. Depois o castelo e todas as coisas começaram a se desfazer.
O Doutor compreendeu que precisava sair dali o mais rápido possível.
O mundo do deus da dor não iria durar muito.
***
De repente o Doutor abriu os olhos e estendeu a mão para tocar na
fronte de Maria. A menina sorriu e também abriu os olhos. Ela se
levantou e abraçou o Doutor. Não havia traços de dor ou tristeza.
Pela primeira vez, ao longo de duas encarnações, a pequena Maria
iria finalmente viver uma vida feliz. Stephen Strange levantou-a
e disse:
- Vá brincar, minha menina.
A
criança saiu correndo para rua, dando gritinhos de alegria, como
deveria fazer toda menina em sua idade. Strange se levantou e convidou
o amigo a se retirar.
- Ela vai ficar bem? - perguntou o amigo, quando já estavam na rua.
- Sim. Ela vai ficar bem. O que enfrentei hoje foi uma encarnação
da dor, mas ela continuará existindo enquanto o homem a provocar...
fome, guerras, vinganças, mesquinharia, preconceito... nós jamais
conseguiremos derrotar a dor realmente se não acabarmos com a origem
dela... se não tivermos coragem de lutar contra nossos próprios
demônios...
FIM
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