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DDC - Junho de 2002

DISTRIBUIÇÃO: um problema que as editoras insistem em ignorar

(ou: como as editoras maltratam o público das HQs e seus prestadores de serviço)

por Ricardo Quintana

Desde sei-lá-quando, o mercado de quadrinhos no Brasil é mais complicado que saber quem está vivo ou quem está morto nas histórias dos X-men. Só para se ter uma idéia, no final dos anos oitenta, começo dos noventa, a coisa já era “meio” bagunçada, com a briga entre a Globo e a Abril, uma lançando títulos lá, outra lançando títulos cá. A Globo com seus álbuns ilustrados de luxo, a Abril também. A Abril com personagens da Marvel, a Globo também, além de contos, mini-séries e especiais.
Aí, durante um tempo, parecia que a Globo havia desistido de publicar quadrinhos, deixando de lado até os aclamados Sandman e Akira. Já a Abril mantinha-se firme com a sua linha de heróis. Até que, no meio da década de noventa, o mercado deu outra virada, começando com a volta da Globo aos quadrinhos, lançando no Brasil alguns títulos da Image (Cyberforce, Strykeforce, WildCATS e Gen 13) além da revista Wizard. Além da Globo, duas novas editoras começaram a “pipocar” títulos nas bancas: a “falecida” Metal Pesado e a Mythos.
Doze ou treze edições depois, a Globo resolveu que realmente não valia a pena publicar quadrinhos e, pura e simplesmente, cancelou seus títulos e, pra não deixar seus leitores a ver navios, contou o final das sagas, num resumo pra lá de ridículo.
A Metal Pesado, depois de uma série de trapalhadas, de mudar de nome (três ou quatro vezes) e também cancelar títulos na metade, deixando-nos, pobres leitores a ver mais navios, finalmente decretou falência, deixando alguns títulos à disposição de várias novas editoras que surgiram no mercado (Brainstore, Pandora Books, Opera Graphica).
Durante esse tempo todo, a Abril continuava com sua hegemonia, como principal editora de quadrinhos do mercado nacional. Hoje, começo do século XXI, acho que dá para dizer que o cenário é completamente diferente, não dá? Não, não dá! Em vez de uma, ou no máximo duas editoras, hoje existem umas dez, cada uma delas lançando de 1 a 1 milhão de títulos no mês (só Deus sabe quantos títulos nós teremos no mês que vem).

Nós vimos o surgimento de um clube (o HQClub) formado pelas comics shops. A poderosa Abril dividir seu patrimônio de títulos com a, até então, desconhecida Panini. Temos quadrinhos de luxo com mais de 100 páginas exclusivos para livrarias, temos quadrinhos em formatinho, formatão, colorido e preto e branco. Sabem o que nós não temos desde os anos 80 até hoje? Distribuição.

O raciocínio é bem simples: um título é lançado fora e faz um certo sucesso; com isso, as editoras nacionais o negociam e trazem para o Brasil; é feito todo um trabalho de edição e divulgação deste título em outras revistas; os leitores ficam a espera de uma boa leitura e o que acontece??! O título atrasa, vai parar em bancas que nunca venderam bem quadrinhos e sim, Playboy... não chegam nem perto das Comics Shops ou atrasam somente para elas, que, com certeza, já fizeram inúmeras encomendas do título para seus clientes fiéis.
E o que acontece, então??! A editora fica insatisfeita com o resultado das vendas deste título e cancela toda e qualquer chance de efetivá-lo no país. Parece história de ficção, mas não é. Aconteceu com Fathom, Speed Racer, Tomb Raider, Demolidor - a queda de Murdock, entre outros. Agora, a pergunta que vem na minha mente é o que mais me assusta!! Será que estas editoras têm noção de que isto aconteceu, mas não fazem nada pra mudar, eu-sei-lá-o-porquê, ou pior, será que com todos os estudos, planilhas, mercadologias e tudo mais, eles nem tem idéia disso e culpam simplesmente, a qualidade da história????!!!

Sei lá eu se o pessoal aqui na terrinha tem medo que aconteça por aqui o mesmo que aconteceu nos EUA, com o mercado direto limitando as vendas apenas às Comics Shops. Mas, desde sempre, as editoras – com exceção das que visam este público, como a Via Lettera e a Conrad – sejam grandes ou pequenas, todas sempre otimizaram recursos para as bancas, renegando as lojas especializadas. Se você acha que o termo renegar é um pouco exagerado, que na verdade as editoras apenas deixam as Comics Shops para segundo plano, mas renegar, nunca, você está enganado. A palavra é essa mesma.
As Comics Shops, durante anos foram (e ainda são) marginalizadas pelas editoras. Nenhuma delas tem um esquema especial de venda para as “lojas especializadas”. Seja pelo operacional, seja pelo custo de impressão junto a pressa de vê-los vendendo nas bancas, a verdade é que todas têm uma desculpa para evitar as Comics. Agora, acompanhem meu raciocínio e vejam se isso não é puro preconceito. As Comics – especializadas em quadrinhos – hoje, não são muito mais que vinte e cinco, enquanto as bancas são por volta de vinte e cinco mil. Vamos supor que a tiragem média de um título seja de 40.000 unidades. Acho que posso afirmar que todas estas lojas especializadas alcançam uma venda média de 2000 unidades, isto tudo pago a vista ou, no máximo em 30 dias, o que representa 5% do total impresso.

Para as bancas fica a outra parte, só que consignada, para a editora receber em noventa dias e, com certeza, com uma devolução que vai para encalhe (isto eu nem ouso chutar, acho que cada editora sabe dizer de si mesma).

Se quiser especificar em números, cada comics seria responsável pela venda de 80 exemplares deste título (2000/25), enquanto que cada banca venderia apenas 1,52 exemplar deste mesmo título (38.000/25.000) – supondo que as editoras não tivessem nenhum encalhe das bancas. Isto mostra que as lojas têm potencial de venda 52 vezes maior que as bancas e isso comprando as revistas, muitas vezes com atrasos e tudo mais. Bom, eu não acho que nenhum destes números devam ser desprezados, já que estas vendas das Comics Shops são apenas um a mais garantido no caixa das editoras. E, além disso, estamos falando de microempresas que sobrevivem de aluguéis, impostos, publicidade própria, estruturas para um melhor atendimento e o já falado desprezo das editoras, já que muitas vezes não temos como vender mais, pois não temos o produto ou só o temos quando ele já virou resto nas bancas.

Imaginem estas editoras como parceiras, o quanto isso não melhoraria as vendas no segmento. Pois é só disso que as Comics precisam para poder melhorar ainda mais o seu atendimento. É nela que o leitor encontra quem saiba discutir ou até adiantar os acontecimentos deste universo; é nela também, que se encontram muitos títulos já recolhidos e que o leitor perdeu por qualquer motivo. Você já tentou encomendar com a banca? Eu já, um monte de vezes, e sabe quantas vezes eu consegui minhas edições? Nenhuma. Vale também lembrar que revistas como Preacher, Sandman, Transmetropolitan e Invisíveis da Brainstore, se não estivessem sendo compradas pelo HQ Clube, já estariam canceladas. Ou seja, para os leitores, motivos não faltam para visitarem as comics.
E por isso, os leitores deixarão de ir às bancas? Não, de jeito nenhum. As bancas estão em todos os lugares, perto de casa, perto do trabalho. Elas são e sempre serão uma opção. As comics, se ainda existem aqui no Brasil, ou é porque os lojistas são loucos, burros, briguentos demais para desistir ou porque realmente acreditam que um dia este pode ser um bom mercado. Nesta minha vasta e, ao mesmo tempo, pequena experiência neste comércio, posso afirmar que vi muito mais absurdo quanto à chegada das revistas em minha loja para venda, do que falta de clientes interessados em comprá-las. Para bem da verdade, quem me conhece, há muito me ouve falar que o maior problema do ramo está no fornecimento e não na venda. E hoje, com a entrada das novas editoras no mercado, a nossa esperança era que as coisas mudassem, mais ou menos como mudou o mercado, mais revistas, mais páginas, briga por preços menores, formatos variados, materiais dos mais diversos, títulos nacionais. Mas, a atenção dada pelas editoras para as comics mudou muito pouco. Títulos lançados às pressas chegam às bancas algumas vezes, com mais de uma semana de antecedência do que nas comics. Não vendem como deveriam, pois os leitores nem sabiam que o material seria lançado e depois, as lojas especializadas ficam com os restos... se isso não é renegar, não sei o que é.
A única editora que pensa, tenta, quer, fortalecer as lojas especializadas é a Opera Graphica, que por coincidência (?), é do irmão de um lojista e que até bem pouco tempo atrás, tinha poucos títulos lançados, mas graças ao apoio dado ao Clube das Comics Shop, vem publicando mais e mais títulos. Por isso, mais uma vez, esse boletim será enviado para vários lugares diferentes, jornais, revistas, sites especializados e também para as editoras. Quem sabe o pessoal acorda e começa a dar um pouco de atenção para as lojas e, consecutivamente, para você. Para finalizar, gostaria de pedir que vocês mandassem um comentário, um pedido, uma bronca, sei lá, qualquer coisa (até um I LOVE COMICS SHOP), para as editoras, só para que elas percebam o quanto os leitores e freqüentadores das lojas especializadas existem e têm público. Segue abaixo a relação de algumas editoras e sites do meio:

Abril: mmoretti@abril.com.br
Panini: marvel@panini.com.br
Mythos Editora: publisher@mythoseditora.com.br
Brainstore: editora@brainstore.com.br
Opera Graphica: editora@operagraphica.com.br
Devir: duvidas@devir.com.br
Pandora Books: pandorabooks@pandorabooks.com.br
Heróis.com: atendimento@herois.com.br
Universo HQ: uhq@universohq.com
Omelete: contato@omelete.com.br

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Ricardo Quintana é publicitário, sócio proprietário e professor da Pandora Comic Shop e está absolutamente certo em reclamar das editoras. A propósito, o título desta matéria foi dado por mim, DJ, não por ele (e minha vontade era de dizer coisa pior, mas este é um site de respeito...)

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